Lembranças do Externato Nossa Senhora do Carmo

Externato Nossa Senhora do Carmo
Externato Nossa Senhora do Carmo

A primeira vez que entrei no casarão foi em março de 1959. Eu tinha então sete anos. Meu primeiro dia de aula! Estava feliz em meu uniforme novo: blusa branca, saia xadrez miudinho em preto e branco, sapatos pretos com meias brancas. Levava comigo uma maleta de couro, cheirando a nova, contendo um caderno, um lápis e uma borracha, tudo novinho em folha.

Passei por aquela porta alta, de duas folhas, subi alguns degraus e entrei em uma grande sala com quatro janelas voltadas para a praça, de onde eu podia avistar a imponente igreja matriz. A sala estava cheia de crianças, falando, rindo, trocando impressões sobre as férias e algumas, mais tímidas como eu, quietinhas só observando.

Antiga carteira escolar do externato
Antiga carteira escolar do externato

Na sala estavam presentes as professoras D. Edith, do primeiro ano, e D. Aparecida, do segundo ano. Com as crianças já sentadas nas carteiras, a ansiedade controlada, entra na sala D. Maria Luiza, a diretora. Todos se calam em sua presença. Ela vem dar as boas vindas aos alunos e professoras e iniciar o ano letivo.
D. Maria Luiza era uma senhora de estatura mediana, se vestia com sobriedade, tinha voz calma e sorriso doce. Seu rosto era muito bonito, tranquilo e ao mesmo tempo enérgico; o que mais chamou minha atenção foram seus cabelos, brancos como plumas de paineira…
Após as boas-vindas, anúncios e orações, fomos encaminhados para a sala de aula. Atravessamos mais uma sala enorme, descemos uma escada e entramos na sala do primeiro ano, na parte inferior do casarão. Éramos doze alunos, depois vieram outros no correr da semana.
Recebemos a cartilha “Caminho Suave, onde pacientemente, dia após dia, D. Edith nos alfabetizava.
Ao final do primeiro ano, já estávamos alfabetizados e sabendo fazer as quatro operações fundamentais. Além da prova escrita, éramos submetidos a exame oral com a presença da diretora. Cada aluno era chamado ao quadro negro, era arguido pela professora, fazia exercícios no quadro negro, na presença de toda a classe em silêncio. Só então era aprovado ou reprovado. Neste último caso, teria que repetir o primeiro ano até aprender o que fora proposto.
Na hora do recreio reuniam-se as duas classes ao pé da escada para a merenda, bate papo e brincadeiras de roda. O quintal era muito grande e bem cuidado; próximo à sala de aula crescia uma frondosoa jabuticabeira, em cuja sombra ficavam dispostos muitos vasos de flor-de-maio, de diferentes cores, que enchiam os olhos durante a florada. Abaixo tinha uma quadra de terra onde, uma vez por semana no final da aula, havia jogo de barra bola, nossa única atividade física no colégio.
No segundo ano tivemos por professora D. Aparecida. Tinha cabelos negros, pele alva e olhos muito azuis, era linda como a Branca de Neve dos livros de histórias que nos emprestavam nos dias de leitura.
No terceiro ano, D. Zélia. A principio era temida, mas logo percebemos que ela era uma professora muito competente e muito doce. Este era considerado o ano mais difícil, muitos alunos não conseguiam passar do terceiro ano.
No quarto ano, D. Anita. Era mais idosa, uma das alunas era sua neta. Era enérgica, exigente, competente e carinhosa. Eu me sentia um pouco neta dela também…

Distinção em Agosto de 1960
Distinção em Agosto de 1960

Periodicamente havia o que chamávamos auditório. As duas classes eram reunidas na sala de cima e lá, diante das professoras e da diretora, poesias eram declamadas, sendo as melhores premiadas… Era chegado o grande momento da classificação. Todos em silencio profundo. D. Maria Luiza pegava uma folha e dizia: Em primeiro lugar… E após breve pausa, dizia o nome do aluno. Em segundo lugar… E ai por diante, até o último aluno… Entre sorrisos de glória e lágrimas de decepção, terminava o auditório. No domingo seguinte, a classificação era publicada na Folha Nova. No final do ano era publicada a lista dos aprovados.
Estudei por quatro anos no Externato Nossa Senhora do Carmo; ali recebi formação religiosa e fiz minha primeira comunhão. Saí muito bem preparada para cursar o ginasial, tanto que passei com mérito pelo temido exame de admissão. Nunca esqueci o tema da redação: “De grão em grão, a galinha enche o papo”. Criei na hora uma história para o tema, que, posteriormente, foi lida pela D. Maísa, professora de português do ginásio, nas classes de meus irmãos.
Era um tempo em que ter um diploma significava ter conhecimento, estar preparado para enfrentar outra etapa, ainda mais difícil do saber. Onde a educação e a formação eram levadas muito a sério; onde além do ensino formal, a escola formava cidadãos conscientes de seus deveres, de seus direitos e, principalmente, de suas responsabilidades.
Outros tempos…

Irene Guimarães
Pinda (SP), 6 de Junho de 2014

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.