Maria Preta – Conversa sobre mobilidade urbana

Todos os passageiros pagam a mesma passagem, portanto devem ser transportados nas mesmas condições.
Neusa Maria Siqueira – Falando sobre a superlotação no ônibus circular para São Lourenço.

Último Sábado do mês de Julho, subo a rua Gabriel Ribeiro, até a penúltima casa do lado direito da ladeira, onde reside a mestra da escola de samba União das Raças, Neusa Maria Siqueira. Antes mesmo de terminar a subida, eis que ela surge no portão e, ao me avistar, me dá suas boas-vindas:

Neusa Maria Siqueira
Neusa Maria Siqueira

Nesua: – Olá, Gilberto, pagando suas promessas nessa nossa ladeira?
Gilberto: – Sim , Neusa, porém a agradável promessa de tornar a visitá-la, para continuarmos as nossas conversas.
Neusa: – Vamos chegar, então.
Guiada por minha anfitriã, adentramos em sua acolhedora vivenda. Assim que me refiz do cansaço da subida, aproveitei para interrogar a mestra de samba:
Gilberto: – Neusa, como é que o povo da Maria Preta encara o problema da mobilidade urbana, tão dificultada pelo acentuado aclive de nossas ruas?
Neusa: – Temos um sentimento de resignação, pois já são várias gerações que convivem com o descer e subir ladeiras. Mas essa resignação não impede o desejo de melhorias no presente e, principalmente, para o futuro. Temos dois grandes grupos de pessoas que merecem uma maior atençaõ de nossos administradores municipais. O primeiro é representado pelos estudantes e seus acompanhantes, que se deslocam para as unidades escolares. O segundo é o dos trabalhadores, que além de descerem e subirem as ladeiras, muitos deles se dirigem para São Lourenço, onde há a oferta da maioria dos empregos.
Gilberto: – Para o deslocamento dentro de nossa cidade, da Maria Preta até a avenida Francisco Dias de Castro, qual a solução possível?
Neusa: – Assim como temos os ônibus escolares que levam os estudantes até a zona rural, por que não poderíamos ter ônibus urbanos circulando da baixada até o alto do morro? Existe um trajeto, ditado pela lei do menor esforço, que os de estado físico mais debilitado utlizam em suas caminhadas de volta para o alto. Todos conhecem esse zigue-zague de um extremo ao outro de nossas ruas. Esse mesmo trajeto pode ser utilizado pelo ônibus, sem qualquer problema. Poderíamos ter horários sincronizados com o circular que vai para São Lourenço. Seria um grande benefício para todos os moradores da Maria Preta.
Gilberto: – Uma ótima idéia, Neusa. Vocês fazem idéia do custo desse transporte e do preço da tarifa?
Neusa: – Esse transporte para os pobres deve ter tarifa zerada, sendo o gasto com combustíveis insignificante para a Prefeitura. E Carmo de Minas tem toda a condição de comprar um ônibus destinado a esse trajeto. Há pouco tempo vimos a Prefeitura realizar o festival de rodeio, onde gastou mais de cento e cinquenta mil reais para a turma do centro se distrair, então não pode faltar dinheiro para necessidades básicas do povo da Maria Preta.
Gilberto: Quase adivinho as explicações “técnicas” para não gastar esse dinheiro com vocês. Quando é para atender reivindicação popular, todas as recusas são baseadas em estudos “técnicos”.
Neusa: – Não acredito na possibilidade de tal projeto ser recusado pelo prefeito Guy. Caso aconteça a recusa, nosso povo ficará com o sentimento expresso em um lindo samba, cantado pelo Jair Rodrigues, que diz:
“…O meu povo inteiro chorou, e você sorria,
Pois trocou nossa escola de tempos
Por um simples amor de tres dias…”
Não acredito que o prefeito cometa esse descuido político, negando-se a gastar com o povo nem um terço do que gastou com a festa do rodeio.
Gilberto: – Você tem razão, Neusa. Sempre esperamos atitudes decentes daqueles que são eleitos para um mandato de tanta importância, e o prefeito Guy Villela é uma pessoa da melhor qualidade. Com certeza o ônibus da Maria Preta será o mais bonito de toda a frota municipal. E quanto ao transporte para São Lourenço, existem queixas que a prefeitura possa resolver?
Neusa: – Olha, Gilberto, não sei quem calculou ou como é calculada a tarifa do ônibus circular, nem como são distribuídos os horários entre cada ônibus, mas uma coisa que eu sei é que a tarifa não foi calculada com passageiros sendo transportados em pé, espremidos nos corredores e achatados pelas portas. Todos os passageiros pagam a mesma passagem, portanto devem ser transportados nas mesmas condições. Se eu pego um ônibus que já tem sua lotação de passageiros sentados completa, neste caso eu devo ter um desconto por estar viajando em pé. Senão, é um caso de crime contra o consumidor, que deve ser tratado pelas nossas autoridades. Temos que aproveitar toda a mobilização ocorrida pelo Brasil inteiro e também pedirmos o nosso passe livre no transporte popular.
Gilberto: – Nunca pensei no fato de estarmos pagando como passageiros sentados e sendo obrigados a viajar em pé. Você está certa, Neusa, nossas autoridades precisam questionar juridicamente essa situação, pedindo, inclusive, a devolução dos lucros que foram indevidamente ganhos. Não adianta reconhecer que um procedimento estava errado e querer corrigir deste momento em diante. É preciso atingir os ganhos obtidos irregularmente  para que a empresa se sinta coagida a não cometer essas infrações no futuro. Também faz-se necessário observar se alguma autoridade estava obrigada a fiscalizar e impedir esse transporte feito de maneira irregular e tenha se omitido de intervir.
Neusa: – Acho que as manifestações populares deste mês de Junho vieram para isso mesmo, para mostrar que a atenção de todo o sistema de governo deve ser atento a todos e de maneira eficaz. E para os menos favorecidos pela fortuna, que têm maiores dificuldades em sua própria defesa, o sistema tem de agir como um tutor, antecipando-se nas ações de defesa dos direitos do povo.
Gilberto: Muito obrigado, Neusa, por seus comentários tão lúcidos e esclarecedores. A Folha Nova sempre deixará a porta aberta para suas manifestações. Desejamos-lhe todo o sucesso em suas ações e projetos para a comunidade da Maria Preta. Você merece nossos parabéns.
Neusa: – Eu é que tenho a agradecer a atenção e a oportunidade de expor minhas idéias para todos que amam essa cidade. Vamos ao cafezinho?
Gilberto: –Só uma colherinha de açucar, por favor. Quero sentir todo o sabor mágico deste delicioso café de Carmo de Minas.

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