Maria Preta – Conversa Sobre Moradia e Lazer

Quanto ao lazer, ele não é péssimo, ele não é nada, não existe. Quando botamos os pés fora de casa só temos a rua estreita, a calçada estreita, a vida estreita.
Neusa Maria Siqueira – Mestra da Escola de Samba União das Raças, falando sobre lazer na Maria Preta

Depois de uma semana em que ocorreram manifestações populares em várias cidade de todos os recantos do país, começamos a entender, passado o momento de perplexidade, as motivações que mobilizaram essas multidões. A reforma popular eleva sua voz para exigir:
Moradia digna e direito ao lazer;
Transportes urbanos acessíveis, seguros e confortáveis;
Educação para todos e de bons resultados;
Serviço de saúde tempestivo e de qualidade;
Segurança pública eficaz.

 

Roseni e Neusa
Roseni e Neusa

Qual a situação de Carmo de Minas frente a essas reivindicações? Será que somos uma ilha de tranquilidade política envolta por esse mar tormentoso? Para entender o que tem a reclamar o povo de Carmo de Minas, fui procurar quem pudesse expressar esses anseios, entendendo e fazendo parte dessa sofrida parte da população. Seguindo orientação de vários moradores da Maria Preta, visitei Neusa Maria Siqueira, mestra da Escola de Samba União das Raças, que encontrei em companhia das amigas Ba (Maria de Fátima Modesto) e Roseni Aparecida Modesto Silva. Com muita simpatia e mostrando-se interessada no assunto, Neusa esclareceu nossas dúvidas:

Ba e as amigas Roseni e Neusa
Ba e as amigas Roseni e Neusa

Gilberto: Neusa, quem é o povo de Carmo de Minas?
Neusa: Somos nós aqui do Morrão, da Malha e da Porteira, que fazemos parte do todo maior que é a Maria Preta. Também fazem parte do povo os moradores do Santo Antonio. Somos nós que o restante da cidade chama até de favela.
A cidade está dividida em três regiões: no alto, da Rua Visconde do Rio Branco para cima, fica a Maria Preta, que é a parte mais populosa e pobre da cidade; da Rua João Coelho para baixo, até a Avenida Francisco Dias de Castro, é a região do centro, onde moram as famílias abastadas, a nata da sociedade, a que está por cima; da Avenida para baixo é o bairro do Campo, com a situação aparentemente mais favorecida pela sorte. O bairro Santo Antonio, um pouco mais afastado, também é de forte concentração de população pobre. Não vou comentar sobre o bairro dos Campos e da Palmela e Nhá Chica porque não tenho contato constante com eles. Então, para mim, povão mesmo são os moradores da Maria Preta e do Santo Antonio.

Gilberto: Vamos focalizar nossas atenções na Maria Preta. Como são as condições de moradia na Maria Preta?
Neusa: Péssimas, péssimas. Você acha que gostamos de morar em casas pequenas, sem conforto, com as paredes externas sem acabamento ou pintura, com um mesmo lote dividido, às vezes, em quatro ou até mesmo seis residências? Construímos as nossas casas com os poucos recursos que temos ou com ofertas de materiais doados pela prefeitura ou por particulares, que se comovem com nossa situação. Enfeitamos nossas casas com quadros e pinturas baratas, com flores e artesanatos que nós mesmas fazemos. Quem não gosta de morar numa casinha bonita, bem arrumada e enfeitada? Além de cumprir a missão de abrigar uma família, uma casa, para ser um lar de fato, precisa encantar os seus moradores. Para isso ele precisa ter beleza por dentro e por fora, uma beleza simples e que seja agradável de se olhar. E o nosso maior sonho é ter uma casa com um pouco de espaço ao redor, para termos umas plantas, um jardim, para sentirmos a liberdade do espaço…

Gilberto: Quais atividades de lazer estão acessíveis à população da Maria Preta?
Neusa: Quanto ao lazer, ele não é péssimo, ele não é nada, não existe. Quando botamos os pés fora de casa só temos a rua estreita, a calçada estreita, a vida estreita. Não temos uma praça, um banco, um ponto para convívio. Para termos lazer, temos que voltar para dentro de casa, para escutar uma música, ver televisão ou conversar, como estamos fazendo agora. Não precisamos de distrações caras. Essa festa do rodeio, por exemplo, ela não foi feita para o povo. Se a rapaziada do morro desceu até lá, ficou do lado de fora, curtindo a música e o movimento. O nosso lazer não pede estruturas gigantescas, de valiosos investimentos.

O que já pedimos, com toda a força de nossos corações, foi para que se fizesse, nessa esquina da rua dos Operários com a ladeira Gabriel Ribeiro, uma quadra poliesportiva com espaço, no piso inferior, para sala de artesanato, para as nossas meninas, e salas para aulas de música, aulas de capoeira, para ensaio de dança das pastorinhas e para organizar a escola de samba. A capoeira, por exemplo, é uma coisa linda. Dizem que é uma luta, mas existe luta onde se evita o contato físico, onde os golpes não passam de simulações? Acho que está mais para uma dança ou um esporte. E se for luta mesmo, é a única que se faz acompanhar de música. Esse é o lazer que precisamos, lazer com esportes, música e dança, para passarmos para as nossas crianças toda a riqueza de nossa cultura com raízes africanas, que é rica de ritmos, de movimentos, de cores e de alegria. Infelizmente não nos ouviram, não nos atenderam.

Unidade Básica de Saúde
Unidade Básica de Saúde

No lugar da quadra poliesportiva estão construindo este posto de saúde. Não sou contra o posto de saúde, mas acho que não vai funcionar. Temos um hospital já construído e bem montado, que não funciona porque não tem dinheiro. Vamos acreditar que esse posto de saúde vai funcionar melhor que o hospital?

Gilberto: Guarde um pouco desse assunto, que voltaremos a ele mais tarde. Ainda vamos conversar sobre transporte, educação, saúde e segurança pública.
Neusa: Ah, a prosa vai render… Aceita um cafezinho?
Gilberto: Como posso recusar? A prosa foi tão boa que deixarei um pouco dela para outro dia, se você concordar com mais uma visita minha.
Neusa: Você será sempre bem recebido nesta casa, Gilberto.
Gilberto: Vamos ao cafezinho, então. A vida não funciona sem um bom café.

2 comentários em “Maria Preta – Conversa Sobre Moradia e Lazer”

  1. Dario Francisco Franqueira Carneiro

    Parabéns, cada vez mais se mostrando um ótimo cronista da vida de nossa cidade.
    Tomei a liberdade de compartilhar seu artigo no Facebook.

    Aplausos por seus artigos.
    Dario

    1. Obrigado pelo apoio, Dario, não nego que preciso muito da divulgação feita por todos que gostam de Carmo de Minas. Porém, tenho que reconhecer que nem 1% das matérias publicadas são de minha autoria. Sou apenas um publicador de opiniões e redações de pessoas que vivem ou viveram nesta nossa querida terra. É tão farto esse manancial que terei material para publicar por vários anos.

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