Meio Século de Folha Nova

Autoria: Fernando Pena

Publicado na Folha Nova, nº 2411, em 12 de Janeiro de 1964

 

Número comemorativo 50 anosNão sei se é defeito ou qualidade: gosto de rir. Aprecio as boas anedotas, as frases espirituosas. os ditos chistosos. Por amar a vida, talvez por achá-la curta, procuro espremê-la para tirar-lhe o bom de seu suco. Não há filosofia alguma nisto, apenas senso prático: se temos de vivê-la, vamos pelo lado menos aborrecido… Mas, no fundo, reconheço-me um emotivo. Arrepio-me com um dobre de finados; entristeço-me com a miséria alheia; tenho, no íntimo, sempre, algumas lágrimas para uma criança morta…

Pois fui eu, justamente eu, tão pobre de resistência físico-emocional, a vítima de bem organizada conspiração contra as emoções. Começou na manhã de domingo, quando crianças probrezinhas e humildes desfilaram pela redação, trazendo-me, espontaneamente, felicitações pelo cinquentenário da “Folha Nova”. Depois, foi gente simples, até das rocas, procurando adquirir exemplares da edição comemorativa, para guardar “como lembrança”. E vieram as expressivas homenagens do Governo Municipal. As atenções das sociedades e instituições locais. A palavra bondosa do Pároco, em plena e tão bonita missa. As inúmeras visitas dos conterrâneos e tantos e tantos abraços cordiais e sinceros. Os oradores – e quantos! – apregoando publicamente qualidades que nunca sonhei possuir. Velhos amigos, por isso suspeitos em suas intenções, ferindo-me a lembrança com referencias ao bom pai, sepultado há 25 anos. Mais a expressão de felicidade da mãe bondosa, satisfeita com as festas ao filho… Confesso: tive que arriar as bandoleiras – vencido! – mais mole do que manteiga em frigideira quente… Depois da refrega, já tranquilo mas ainda com o coração em frangalhos, considerei: outra desta, eu não aguentaria…

E ainda bem, pois um dia assim, uma festa assim, só se vive de meio em meio século!

Fernando Pena
Janeiro de 1964

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