Meu Carmo

Autoria: Godofredo Rangel.
Publicado na Folha Nova, n. 425,
Em 15 de Novembro de 1922.

Creio que posso dizer-me carmense. Nosso torrão natal não é somente aquele em que vimos para a vida. É-o, também, aquele em que nossa alma abre o primeiro albor, o amanhecer da razão. Nossos olhos se descerram para a compreensão das coisas e nosso espírito pasma, atônito, para as encantadoras novidades do universo “recém-criado”.
A primeira imagem que do mundo conservamos é a limitada pelo círculo de colinas abrangidas pelo nosso raio visual.
Essa primeira imagem guarda-se indelével e não sei de outra mais formosa.
Egressos de nosso berço, vemos depois outras terras. O horizonte amplia-se. Mesclamo-nos ao turbilhão das grandes metrópoles e contemplamos estupefatos as maravilhas da civilização. À vida intensa exterior, acrescenta-se, em nosso espírito, a vida intensa das ideias. Como cresceu o mundo! Que tumulto de sentimentos e panoramas novos! Mas em meio ao vortilhão de luta e de vertigem, nossa alma conserva, em seu mais puro recesso, um cantinho iluminado e doce, onde fulge a imagem de nosso torrão natal, como uma nesga florida que a felicidade abençoou. Abençoou-a, e aí ficou residindo, e em nenhuma outra parte a veremos.
Esse afeto ao chão natal pertence ao número dos sentimentos elementares que força alguma poderá delir da alma.
Quão compreensível é o que se diz de certas aves emigradas, que em sentindo vir a morte, buscam outra vez, em vôo ansiado, transpondo imensas distâncias, a rama que sopesava o leve ninho em que nasceram!
E por isso foi que um poeta exclamou: “Feliz do que morrer em casa onde nasceu”.
Feliz, sim! Esse não morrerá entre estranhos. Acolhe-o aí o carinho das próprias coisas brutas. Como que as árvores inclinam os ramos em gesto de afago e proteção, o céu sorri-lhe com um ar de conhecido antigo; e em seus transes vê, nas pupilas de ouro das estrelas, como um brilho úmido de lágrimas de amiserado afeto; as montanhas oferecer-lhe-ão vales acolhedores, como regaços maternos; e esse, a expirar, sentirá a morte tão fácil, que será como um renascer para outra vida melhor.
Foi sob influxo de um sentimento assim, que um poeta dedicou esse soneto a seu torrão natal:

Recordo: um lago verde, uma igrejinha,
A casa, o ribeirão, a ponte e um carro
Com duas juntas de bois que ia e vinha
Rinchando alegre, carregando barro.

Havia a escola que era azul e tinha
Um mestre mau, de assustador pigarro.
Meu Deus! Que é isto! Que emoção a minha
Quando essas coisas tão singelas narro!

Seu Alexandre, um bom velhinho rico
Que hospedara a princesa; o tico-tico
Que me acordava de manhã e a serra

Com seu nome de amor – Boa Esperança,
Eis tudo quanto guardo na lembrança,
Da minha pobre e pequenina terra!

Que espontânea ternura não ressumbram estes versos! Estamos a ver, atrás eles, uma alma tumida de emoção, que alonga olhos saudosos para um vilarejo distante.
Observem que, por ser pequenino e modesto, nosso berço natal não desmerece; parece até que, por ser pequenino, o Carmo se faz maior para minha afeição. Que pena não ser ainda mais simples, bem menor, para que eu pudesse para que eu pudesse apertá-lo contra o peito, carinhosamente, comovidamente!

Mas… a que vem estas lamurias piegas? Fujo ao tema a que me propus. Desejava congratular-me com os carmenses pelo auspicioso acesso de nosso Carmo a termo judiciário, e, em vez disso, ponho-me sentimentalmente a divagar. Todavia,pensando bem, essas felicitações estariam descabidas, pois seria o mesmo que felicitar-me a mim próprio. O que, porém, não é descabido, é, como carmense, manifestar-me grato aos que conseguiram a promoção. Os dirigentes do município realizaram uma bela obra de desinteresse e patriotismo, que constituiu um verdadeiro triunfo, e o governo do estado procedeu com justiça, criando o novo termo. A todos, portanto os aplausos e louvores que merecem.

Godofredo Rangel
Novembro de 1922

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