Antonio Coli

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1.322,
em 19 de Abril de 1942.

Corria o ano de 1855. O Papa Pio IX, o Grande, governava a Igreja Católica e o rei Vitor Emanuel I, pai do desventurado Humberto Primo, dirigia os destinos do povo italiano.
Apesar da luta tremenda que se travava entre o Vaticano e o Quirinal, a formosa península era iluminada pelo sol da liberdade, pois naquela época não existia ainda o fascio escravocrata, instituído pelo regime caricato mussoliniano.
Na poética região da Toscana, em Lucca, numa pitoresca vivenda plantada na escarpa de um outeiro que olhava para as margens serenas do rio Serchio, no dia 7 de Agosto desse ano de 1855, nascia uma criança do sexo masculino, recebendo, no batismo, o nome de Antonio.
Antonio Coli, natural de Lucca, no verdor dos anos, deixou a sua gloriosa província natal e atravessou mares e oceano, chegando ao Brasil, onde, após percorrer cidades, vilas e povoados, como modesto negociante, sentiu-se sobremodo deslumbrado ao conhecer o pequenino arraial do Carmo do Rio Verde, que não mais abandonou, maravilhado com a cativante hospitalidade do seu povo, tornando-se um sincero carmelitano – título que soube manter com carinho e orgulho até o último dia da sua longa e útil existência.
Casou-se aqui com Dª Isabel Branco, tendo o casal doze filhos, sendo dez vivos, e todos timbram em cultivar, carinhosamente, a sua memória, guardando no recesso de seus corações o exemplo paterno.
Nhabela (chamemo-la pelo apelido) vive com o coração angustiado por uma saudade imensa do digno esposo, companheiro dedicado durante cinquenta anos.
A casa comercial de Antonio Coli, à rua Direita, prosperou consideravelmente, tornando-se num grande empório onde se supriam de toda sorte de mercadorias os particulares, os fazendeiros e os pequenos negociantes desta zona de Minas.
Nas proximidades da referida casa era tão intenso o movimento que, às vezes, dificultava o transito. Carros de bois, com vestígios de longas caminhadas, achavam-se quase sempre encostados no armazém, ao lado do morro, carregando sacarias e outros volumes; mulas soltas dos cabrestos e livres das cangalhas pastavam no angola; muares em trote áspero de solavancos, tendo à frente a madrinha, em cujo pescoço tiniam sincerros, estacavam, subitamente, obedientes à voz de comando dos tropeiros.
E, durante mais de um quarto de século, a Casa Coli foi o maior depósito de secos e molhados do arraial.
Antonio Coli sempre teve como diretriz, nas transações comerciais, uma escrupulosa honestidade, razão porque, dia a dia, multiplicava a freguesia e crescia a confiança do povo.
Era um cidadão simples e bom, possuindo regular cultura literária e, como todo italiano inteligente, nutria uma verdadeira admiração pelo glorioso filho da famosa e heróica cidade de Florença: Dante Alighiere, essa figura majestosa e imortal da poesia mundial.
Assim, modesto e trabalhador, Antonio Coli atravessou uma longa vida, toda ela voltada ao cumprimento do dever, único legado que deixou aos filhos, após tantos anos prósperos e felizes.
Embora a sua idade já fosse um tanto avançada, talvez ainda vivesse mais alguns anos, se um profundo sofrimento emocional não houvesse ferido impiedosamente o seu coração de pai amantíssimo. João Batista, o último rebento do coração paterno, jovem em plena mocidade, estudioso e com a alma povoada de sonhos e de esperanças, é atacado por gravíssima moléstia nervosa, sendo internado em um hospital.
Foi esse acontecimento imprevisto e doloroso uma punhalada mortal no coração de Antonio Coli, abreviando-lhe consideravelmente os dias de vida.
A 22 de Novembro de 1937, Antonio Coli fechou para sempre os olhos. Morreu resignado e confortado com os sacramentos da sublime religião católica, assistindo aos seus funerais numerosíssimas pessoas deste município e de várias localidades vizinhas.
À beira da sepultura, o professor Antonio Luiz Nogueira, diretor do Grupo Escolar Gabriel Ribeiro, em nome da população de Silvestre Ferraz, pronunciou uma comovente oração, em cujas frases nimbadas de afeto e imersas em profunda mágoa, relembrou os longos anos de fecunda atividade comercial de Antonio Coli, a sua vida digna e proveitosa e, na bela peroração do triste adeus, proclamou a perfeita veracidade contida nas palavras que, na véspera, entre lágrimas, o Dr. Altamiro pronunciara: “Meu pai morreu como um homem e como um cristão”.

João do Rio Verde
Abril de 1942

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