Nina Sanzi

Transcrito da revista Vida de Minas,
Publicado na Folha Nova, nº 129.
em 30 de Julho de 1916.

Na Vida de Minas, bela revista ilustrada e literária de Belo Horizonte, encontramos o seguinte artigo relativo a Nina Sanzi, a adiantada atriz que nasceu nesta vila e que, dia a dia alcança verdadeiros triunfos na arte a que se dedicou:

Nina Sanzi
Nina Sanzi

Nina Sanzi! A excelsa artista compatrícia vai hoje encher de graça e luz toda essa seção. Basta que aqui esteja o seu retrato, porque é escusado fazer o elogio da primorosa intérprete de d’Annunzio, ou delinear sua carreira triunfal.
Fomos dos felizes que se extasiaram com o conhecer da arte fina e superior de Nina Sanzi, os tocantes lances patéticos quando, impregnada do sublime e do grotesco, ela nos dava a sensação da realidade no tablado do Teatro Municipal, ao mesmo passo que o seu vulto encantador se aureolava com os aplausos eloquentes de uma platéia de escól.
Para os que não lhe souberam a grandeza dos ardores dramáticos , o encanto estranho da voz, a poderosa maleabilidade da fisionomia e o brilho intenso do olhar, fala com valor esse telegrama que o Jornal do Comércio publicou aos 8 de Junho de 1916:
“Paris, 7 – Realizou-se, hoje, no Teatro Rèjane um espetáculo de gala. Representou-se a Gioconda, de Gabriele d’Annunzio, cujo papel principal foi desempenhado pela atriz brasileira Nina Sanzi, que teve como companheiros de cena vários artistas que na criação da peça trabalharam com a notável atriz italiana Eleonora Duse.

Olyntho de Magalhães
Olyntho de Magalhães

A récita teve êxito completo e rendeu 15.000 francos. Estiveram presentes muitos diplomatas, inclusive o sr. Olyntho de Magalhães, Ministro Plenipotenciário  do Brasil nesta Capital, além de elevado número de artistas notáveis de Paris. Nina Sanzi foi muito aplaudida em cena e felicitada no seu camarim, distinguindo-se entre as pessoas que a cumprimentaram o sr. Emile Fabre, diretor da “Comedie Française“. A embaixatriz da Italia oferece, hoje, uma chá à sra. Nina Sanzi.”
Depois disso, para que aduzir comentários?
Nina Sanzi, que teve por berço a vila de Silvestre Ferraz, coloca-se, pois, na primeira fila dos artistas dramáticos do seu tempo, interpretando uma tragédia que vai até o recôndito da alma humana: uma tragédia em que d’Annunzio exprime algumas das suas idéias favoritas, com certa tendência para elevadas pretensões psicológicas, quando apresenta o verdadeiro artista acima das leis ordinárias da moral.
Nina Sanzi tem representado nos idiomas portugues, frances, ingles e italiano, que conhece corretamente e dentro em breve o fará em espanhol, que ora estuda com afinco.
Fechando esta singela homenagem à notável artista mineira, queremos dar conta aos leitores da alta distinção que acaba consagrar o nome de Nina Sanzi, com o ser solicitada para fazer parte da Comedie Française, o célebre teatro fundado no tempo de Luiz XIV. Este fato constitue para a vidade de um artista dramático o certificado máximo do seu valor e é uma honra inexcedível para os mais notáveis intérpretes da tragédia e da comédia. Mas os estatutos do Teatro Frances determinam que seus autores e atores sejam franceses, de origem ou naturalizados. E por isso Nina Sanzi recusou entrar para a Comedie, porque ama a sua pátria e não a troca a sua nacionalidade por glórias terrenas. Preferiu a glória máxima de sua carreira, a glória de continuar a ser brasileira.

 

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Para complemento, transcrevemos a seguinte passagem, do livro Cem anos de Teatro em São Paulo (1875-1974), autoria de Sábato Magaldi e Maria Thereza Vargas, Ed.SENAC, São Paulo, 2001:
No segundo semestre de 1909 proliferaram os grandes do teatro frances e italiano, como Le Bargy, Gabrielle Dorziat, Silvie, Emma Gramatica, Ruggero Ruggeri e Nina Sanzi.

Eleonora Duse
Eleonora Duse

Nina Sanzi é uma mineira da Freguesia do Carmo do Rio Verde (Silvestre Ferraz). Nascida Afonsina Capelli Camarão, segundo Lafaiete Silva, em sua História do Teatro Brasileiro, com a idade de 7 anos Nina Sanzi foi para a Europa estudar canto. A conselho da professora, passou a dedicar-se ao teatro, estreando num elenco dirigido pela famosa atriz italiana Eleonora Duse. Depois, na França, é alvo de um artigo elogiosíssimo de Edmond Piccard, que surpreendeu mesmo os brasileiros, que desconheciam suas interpretações.

 

La Gioconda
La Gioconda

Nina Sanzi apresentou-se no Teatro Santana com as peças Magda, de Sudermann, A Gioconda, de D’Annunzio, e também, além de outras obras, O Escândalo, de Medeiros e Albuquerque, a cujo diálogo falta  a natural vivacidade e interesse, o preciso brilho, se bem que o autor seja um encantador contista, um fino humorista, manejando com extrema delicadeza a ironia. Na Gioconda, Nina deu-nos uma Silvia original e mais profundamente humana, enquanto a interpretação de Duse é mais requintadamente estética.

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