Ninho Abandonado

Publicado na Folha Nova, nº 952, 17 de junho de 1934.

À Maria Ivonete Atalecio

Olha, minha amiga, um ninho abandonado…
Foi feito de carícias e de beijos,
Num sonho terno e alado,
Em noites de luar e de desejos.
Oculta-se, agora, num pedaço velho
Da roxa túnica de Cristo,
Encontrado, por acaso, no Evangelho…
Mais triste, nada tenho visto.
Não se ouve uma jura… Nem um suave idílio
Faz cantar, como outrora, o ninho
que vai se espedaçar, como no exílio,
Se espedaçam e morrem, num caminho,
As pétalas brancas, frias, a rezar…
Povoá-lo novamente? É impossível:
Sem Nume está o altar,
Numa desolação horrível…
Nada aqui ficou, bem vês. Está deserto.
Morreram os casais…
Mas eu ao coração aperto
Uma lágrima, um adeus e nada mais…

Fátima Cléu
Outubro de 1932

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