O Alto

Autoria: Nenê Noronha.
Publicado na Folha Nova, nº 51,
em 11 de Janeiro de 1915.

Através de saudosas recordações, lá vejo muito remoto, os dias cantantes de uma infância travessa.
Foi no Alto, naquele memorável recanto meio oculto entre o verde exuberante de uma vegetação frondosa, que passei os meus verdes anos.
Como se despertasse de um largo sono, ouço uma surdina que se afasta longínqua como um ritmo que se vai morrendo pouco a pouco, com o declinar da tarde.
Como um desfilar de idéias, todo esse passado se me passa agora pela mente…
Situada no meio outeiro está a casa que, em tempos idos, era cercada de velhas árvores, de belas palmeiras em forma de leques e de altos coqueiros com seus pendões doirados…
E a velha casa, com as paredes enegrecidas e meio esboroadas, era sempre revestida de encantos para as nossas joviais travessuras, para as nossas alegres alvoradas.
O aspecto envelhecido da morada assemelhara-se aos velhinhos que ali viviam. Que de carícias, que de meiguices nos eram distribuídas durante o dia! O vovô, eu o recordo como se o estivesse vendo: era alto e ereto como uma palmeira; a fronte, enrugada e leal, era sempre amenizada por um sorriso de ternura…
Através de uns óculos brilhavam seus olhos pequenos e vivos como setas de luz, que se nos penetravam na alma profundamente.
Eu o vejo ainda, ora a esculpir alguma imagem, dando à madeira belas delineações de verdadeiro escultor, ora, com seus hábeis pincéis e uma paleta em punho, dando a uma tela a beleza incomparável de alguma perspectiva de nossa terra.
Era esse bom velho, que sempre de bom humor nos acompanhava muitas vezes, em nossas garrulices infantis. E pelas longas noites de inverno, aconchegados ao fogo, nos contava histórias de palácios de bronze e de sereias encantadas. Assim adormecíamos em seus joelhos, enquanto fora o vento recortando açoitava o arvoredo e o mocho piava lúgubre no telhado.
Correram-se os tempos…
Morreram os velhos…
Pouco a pouco foram desaparecendo as belas árvores do bosque, onde pelas manhãs os sabiás cantavam em dias de primavera. Desapareceu, também, o velho rancho onde os tropeiros, a descansarem das lides do dia e das longas caminhadas, quebravam o silêncio da noite com alguma modilha sertaneja, que era acompanhada das zanguizarras quérulas de uma viola sentida e saudosa.
Tudo se renovou agora: a casa está elegantemente reformada; desapareceu o velho muro, onde o jasmineiro estendia os seus longos galhos todos estrelejados e pequenas flores; as palmeiras tiveram a mesma sorte, foram derrubadas como as velhas árvores do bosque.
Entretanto, para nós tudo se mudou agora. A casa que antes se nos parecia sorrir com as suas paredes esboroadas, hoje está muda e triste. A musica doce dos ninhos, a canção eterna e marulhante do regato, os cincerros da tropa que pastava junto à casa, toda essa sinfonia doce que se nos deleitava, desapareceu com o evoluir dos tempos. E o fel da saudade goteja em minha alma como um infiltrar de esperanças mortas.

Nenê Noronha
Silvestre Ferraz, 6 de Junho de 1915

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