O Castigo

Autoria: Mario de Arantes
Publicado na Folha Nova, nº 90,
em 31 de Outubro de 1915.

O Sr. Domiciano Monteiro de Noronha Pinto, conhecido pela alcunha de Aleijado, por ter ficado entrevado pelo reumatismo, formou o projeto de compartilhar a ceia da Sexta-feira da Paixão, no ano de 1862, com os parentes na Fazenda dos Criminosos.
Ele residia na Olaria, numa chácara à beira da estrada que vai para a cidade de Cristina, distante cerca de um quilômetro do arraial de Carmo do Pouso Alto, hoje Silvestre Ferraz.
Mandou o Generoso, seu criado, encilhar a bestinha com a andilha, espécie de cadeirinha para quem monta sentado. Depois do animal albardado, pegou as muletas, andou até chegar ao animal e acomodou-se na andilha, enquanto o Generoso juntava as muletas e enfiava-as numa alça do albarda na garupa da bestinha. Esta caminhou em andadura macia até chegar à Fazenda dos Criminosos.
À porta da casa, no curral, o Domiciano foi recebido pelo Seu Zeca Luiz, Siá Luizinha, Siá Lulua, Siá Amélia, Siá Mariazinha, Seu Chico Luiz, Seu Antonio Gomes e Seu Messica (Domiciano Gonçalves) que estavam juntos. Todos mostravam sinais de satisfeitos com a chegada de um parente, como é modo de se tratar a todas as pessoas que chegam às fazendas.
Na cerca do terreiro uma negra escrava disse baixinho e fazendo o sinal da cruz: – Credo! Já vem o condenado, o coisa ruim!
Seu Zeca Luiz gritou a um dos serviçais: – Oh, Máximo, ajuda a apear Seu Domiciano.
Ele, com as suas muletas, entrou na sala com um ar alegre, todo cheio de si. Usava a barba e a cabeleira sem qualquer trato. Era um desiludido da felicidade terena como da outra vida. Era descrente da religião, como de Deus.
Todos entraram na varanda, pois era hora do café; assentaram-se ao redor de uma enorme mesa e serviram-se de café com biscoitos e outras quitandas.
A América, menina filha do Seu Zeca luiz, ofereceu ao Aleijado uma fatia de pão de ló, com a mesma mãozinha rósea.
Siá Luizinha disse à menina:
– Oh, filha, porque não pegou com o garfo?
– Não é preciso isso, disse o Aleijado, a mãozinha desta santa tem mais valor que qualquer garfo.
– Oh, Oh, Já há santos? perguntou o Seu Messica.
– Santos e anjos sempre houve e haverá enquanto existir carinha semelhante à desta santinha. Lá fora (apontando o firmamento) não há, não.
Nisto a cozinheira veio perguntar à Siá Luizinha o que faria para a janta. Siá Luizinha respondeu:
– Bacalhau. Hoje é dia de jejum, já sabe.
– Sim, Sinhá.
– Eu não como bacalhau, disse o Aleijado, isso é a pior comida que há.
– O que come?
– Galinha ou carne, não faço questão, respondeu Seu Domiciano.
– Pega um frango, disse Siá Luizinha à cozinheira.
– Sim, Sinhá.
– Seu Domiciano não tem medo dum castigo do Céu? perguntou-lhe Siá Amélia.
– Qual Céu! Se houve isso, já acabou.
– Você vai para o inferno em dizer essas coisa neste dia, ajuntou Seu Antonio Gomes.
– O inferno é do Dante. Isso já passou da moda. Mas se vou para o inferno por não comer bacalhau, todos os doentes do estômago vão também para o inferno, ora bolas. Muitas moças com o estômago delicado irão fazer-me companhia. Que belo.
Nessas caçoadas e em outras passaram o tempo até a hora que uma criada pediu para desocuparem a mesa para estender a toalha.
Passaram para a sala de fora em que esperavam a jantinha para cear, conforme disse Siá Luizinha.
Jantinha é a palavra usada no Sul de Minas numa forma de modéstia. Ainda fala-se aí de jantá, em lugar de jantar, na linguagem simples como em tudo, no modo de viver dos filhos das Alterosas.
Logo Siá Luizinha convidou as pessoas para chegarem à mesa. Os que não conheciam os costumes nas fazendas, naquela época, ficariam admirados ao ver a mesa posta. Em lugar de uma jantinha apareceu um banquete, apesar de ser dia de jejum. Descrever a jantinha é uma tarefa difícil pela quantidade e variedade de pratos.
Numa cabeceira mostrava-se, acanhado, encolhido com medo do banho de gordura quente, com as pernas dobradas e com o pescoço escondido debaixo de uma asa, um frango refogado. Era o condutor de Domiciano, o Aleijado, talvez para as caldeiras de Pedro Botelho.
Siá Luizinha disse ao Aleijado:
– É a sua encomenda.
O Aleijado assentou-se em frente ao frango e logo, com tal maestria, trinchou-o todo.
As outras pessoas assentaram-se e começaram a desmacerar o estômago, isto é, a consoar ou quebrar o jejum.
O Aleijado oferecia aos vizinhos nacos de frango e ninguém aceitava. Um disse: – É só com você; outro disse: – Não quero acompanhá-lo em cometer esse pecado.
– Não acha companheiro numa viagem para um lugar tão feio, disse-lhe o Seu Messica.
O Aleijado rebatia os ditos rindo-se e comendo com bom apetite. Pode-se dizer que o Aleijado deixou no prato só os ossos do frango.
Depois de grande cópia de acepipes de bacalhau e de diversos vegetais, apareceu a sobremesa, composta de doce de leite de muitas formas, doces de frutas como figo, laranja, doce de abóbora e de batata, goiabada e marmelada, acompanhados de queijos da terra, de requeijão, de leite fresco e coalhada.
Quando chegou o café, já estava aceso um enorme candieiro sobre uma mesinha para alumiar a sala, pois já era noite.
Siá Luizinha convidou os comensais a dar graças a Deus que lhes deu o pão desse dia. Todos levantaram-se e fizeram uma oração mental. O Aleijado não levantou-se, talvez, pela dificuldade de o fazer.
Saíram para a sala de fora e ficaram na prosa. A última pessoa que saiu foi o Aleijado. Uma criada que estava tirando a mesa fez um sinal de cruz às costas do Aleijado, murmurando:
– Vai para o inferno, coisa ruim, comer carne na Sexta-feira Santa. Cruz!
às 8 horas deitaram-se, conforme o costume da fazenda.
À meia-noite ouviram-se gemidos dolorosos no quarto das meninas. Siá Luizinha correu e contemplou uma cena penosa. As meninas estavam estorcendo-se com cólica intestinal.
Logo noutro quarto, outros gemidos, e noutro quarto, mais gemidos…
É melhor dizer que todas as pessoas que jantaram sofreram cólicas. Não chegavam mãos das senhoras a acudir às pessoas acometidas.. Até a madrugada as empregadas iam à cozinha a ferver água e fazer chá de macela para as meninas e para os filhos da criadagem.
Às 6 horas da manhã Siá Luizinha entrou na varanda para tomar café, achou o Aleijado sentado, socegado, esperando esse conforto, e perguntou-lhe:
– Seu Domiciano, dormiu bem?
– Por que não? Dormi como um frade da Cartuxa.
– Oh, não sofreu nada?
– Nada.
Depois houve a explicação do fenômeno. A cozinheira foi a um armário a procurar farinha de trigo para engrossar o caldo do bacalhau. Achou ali um embrulho com um pó branco, parecendo-lhe farinha. Pôs uma grossa dose desse pó ao bacalhau. O tal pó era tártato.
A única pessoa que não sofreu o castigo foi o Aleijado.

Mario de Arantes
Outubro de 1915

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