O Centenário de Carmo do Rio Verde

Autoria: Julio Ribeiro Gorgulho.
Publicado na Folha Nova, nº 6,
em 24 de Fevereiro de 1914.

Não é grande a diferença que vai de um minuto a um século. Cem anos é um nada, cem anos é um mundo. Para o caso presente, isto é, no tocante ao centenário do nosso Carmo, encaro esse período de tempo do mesmo modo por que vejo, por exemplo, o segundo ou o terceiro aniversário natalício de um ser humano. Um homem que vai aos noventa anos não tem motivos para se queixar do bom Deus; uma cidade que vai aos tres mil já viveu bastante. Mas quem nos dirá que não chegará aos dez mil ou mais anos? O mundo é muito novo para se calcular a quantos anos deve montar a infância, a mocidade ou a velhice de uma cidade. Pode-se, porém, garantir que o Carmo é criança, e criança nova. É esse, pois, um motivo para que lhe apresentemos com gáudio as clássicas felicitações. Dar parabéns à criança por um seu aniversário é saudar o futuroso, a flor em botão; dá-los à velhice é saudar o passado.
Não vai longe o tempo em que, mui próximo ao agora quase arborizado largo da Matriz, existia… Imagina o quê?… Um gamelo. Um gamelo enorme e grosseiro, isso a que os nossos chamam cocho e que ali servia… Oh! Abre bem o teu ouvido, leitor amigo, para escutares o que te vou dizer. Abre-o e benze-te, cidadão amante da liberdade. Aquele madeiro comprido e oco que se via, solene e grave, estendido nas proximidades da nossa bela praça, era o prato, a travessa, a terrina, ou o que quiseres, onde os pobres pretos escravos almoçavam e jantavam. Perto se erguia a morada do senhor-moço; o feitor, de “bacalhau” em punho, assistia às refeições, e homens comiam no cocho.
Mas, estou a fazer-me trágico e esse não é o meu feitio. A vida é uma comédia. Se há nela momentos graves e solenes como o nosso cocho, digo, como a terrina de nossos escravos, há-os também alegres e joviais. Aqueles são os personagens sérios que se vêem, na peça, amesquinhados ante a gargalhado zombeteira de seus colegas cômicos.
Queria há pouco dizer que não vai ainda longe o tempo em que o Carmo era apenas uma fazenda: uma casa, um curral, um paiol, etc. No entanto, decorridos cem anos, ei-lo transformado num bonito e rico povoado, com prédios excelentes e bem alinhados, bela Matriz, magníficos estabelecimentos de ensino, clubes, teatro, telefone, estação ferroviária, tipografia, afamada chácara de pomicultura e em vésperas de possuir boa cadeia, iluminação elétrica, canalização de água, rede de esgotos, casa de misericórdia, fábricas e muito mais. E depois disso, há quem diga que eram melhores os tempos de outrora. Mentira…

Julio Ribeiro Gorgulho
Silvestre Ferraz, Fevereiro de 1914

1 comentário em “O Centenário de Carmo do Rio Verde”

  1. Gilberto Arantes Junqueira

    Julio Ribeiro Gorgulho era natural de Carmo do Rio Verde. Exerceu aqui a advogacia até próximo ao ano de 1912.
    Américo Pena cita sua visita a Silvestre Ferraz em 1914, época em que ocupava o cargo de juiz na comarca de São Sebastião do Paraíso.
    Posteriormente seu nome aparece como desembargador no Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
    Apesar de exaustiva pesquisa na Web, não conseguimos levantar dados biográficos deste nosso conterrâneo. Qualquer informação a seu respeito pode ser incluída neste artigo através de comentário.

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