O Clima no Sul de Minas em 1860

Excerto do livro “Panorama do Sul de Minas” – Publicado [entre 1864 e 1870]
Autoria: José Franklin de Massena e Silva.

A temperatura do Sul de Minas varia segundo as localidades, altitudes e exposição a diversos ventos e mesmo segundo os fenômenos físicos que a pode modificar; assim, pois, na serra do Itatiaia, nos rigores do inverno, o termômetro desce a 6 graus Celsius, abaixo de zero, temperatura desconhecida em geral no Brasil: o gelo aí resiste em camada de um dia para o outro e a neve também aparece.
Na base desta serra, nos dias de geada, as árvores revestem suas folhas de um vidro espesso; nos altos, os lagos gelam-se e aturam deste modo 2 e 3 dias, conforme o estado da atmosfera.
O vapor gelador, em forma de flocos, também encontra-se neste lugar, que durante o verão possui um clima mais temperado.
A menor temperatura para as altitudes de 900 metros, como na Aiuruoca e outros municípios do Sul de Minas, tem sido de 8 graus Celsius, onde já há abundância de geada.
A maior temperatura que temos experimentado foi de 32 graus Celsius em Janeiro de 1860, em Itajubá, a 30 de Dezembro de 1859, no Carmo, e em Fevereiro do mesmo ano, na Aiuruoca.
O Sul de Minas há 3 anos para cá tem sofrido mudança na temperatura e o verão já não é tão doce como outrora; assim pois na Aiuruoca a marcha diária da temperatura era de 16 a 17 graus Celsius às 7 horas da manhã, 25 e 26 graus às 2 horas da tarde; entretanto que em 1858, 1859, 1860 e 1861 a temperatura parece progredir tanto no mínimo como no máximo, e tem sido de 19 a 20 graus ao amanhecer nos dias mais frescos, 22 e 23 graus nos dias mais cálidos, chegando a 28 e 29 graus às 2 horas da tarde do ano de 1857; até Março de 1863 o termômetro tem subido cerca de 1 grau em cada ano no máximo da temperatura anual.
A vegetação tem sido vítima desse excesso de calor; muitas plantas que se notavam no estio moderado, desapareceram, e suponho que a causa da morte de numerosos pinheirais nas abas da Mantiqueira procede deste fenômeno.
Convém notar que Aiuruoca, na altitude de 1.200 metros, em Fevereiro de 1858 apresentou a temperatura de 32 graus Celsius; o Carmo dos Criminosos, na Cristina, em 30 de Dezembro de 1859, às 5 horas da tarde, sofria essa temperatura em uma altitude de 1.000 metros; Baependi, São Caetano da Vargem e Santa Rita do Pouso Alegre, em Janeiro de 1860, sofreram o mesmo grau de calor.
O máximo da temperatura no inverno tem sido de 21 graus Celsius.
A passagem do calor para o frio, em nosso Sul de Minas, tem sido sempre nestes tres últimos anos por uma descida espantosa do termômetro, logo depois de um grande calor.
Assim, em Abril deste ano o máximo do calor não excedeu a 25 graus, e nem a temperatura foi de menos de 22 graus, céu em cumulus, e no dia 24 às 7 horas da manhã, o mesmo marcava como mínimo 8 graus, como máximo no dia 14 graus. Esta mudança súbita do calor para o frio observou-se em 1859, pelas endoenças (quinta-feira da Semana Santa) e isto tem influído no estado sanitário do povo, apresentando logo bronquites e anginas; e na passagem do frio para o calor, em Setembro, reinam as pleurisias e pneumonias.
A irregularidade ou variação da temperatura no Sul de Minas apresenta certas anomalias; assim, a 15 de Outubro de 1859, quando a declinação do Sol já é austral e já há muito calor em Pouso Alto, observou-se geada, e em 14 horas o termômetro fez uma diferença de 4 graus, para tocar em 7 graus, ponto onde em Pouso Alto já se observa geada. Na Aiuruoca, em Novembro desse mesmo ano houve um fenômeno análogo, e nessa vila já houve ocasião em que outrora, a 8 de Dezembro, quando o Sol já dardejava na vertical, paralelo onde esta vila existe situada, observou-se muita geada e rigoroso frio.
Em março de 1859, na Alagoa de Aiuruoca, houve tanta abundância de gelo a ponto de mirrarem todas as plantações. Do Monte Belo até o Itatiaia nos dias límpidos para o Sul de Minas, de Março em diante, nesses lugares há geada, e quando esta cai na Aiuruoca, Bocaina e Guapiara, no Itatiaia, Serra Negra e Monte Belo há, além de gelo, abundância de neve.
Assim observei que em uma altitude de 2.000 metros, no Itatiaia, a 24 de Junho de 1859, o termômetro, às 7 horas da manhã, marcava 3 graus e havia muita geada; na Guapiara e Aiuruoca, nas mesmas horas, o termômetro marcava 10 graus e seria preciso descer 2 graus para observar-se o que se via nas montanhas; isto depende da altitude e nestes lugares, no estio, o clima é mais doce e mais temperado, em razão das causas físicas que para isso influem.
Uma observação constante é que, no excesso do calor, se o termômetro caminha para 31 e 32 graus e o céu carrega-se de cumulus em um negro medonho, finda-se em uma tempestade, seguida de raios e ventos de rajada.

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