O Escultor e a Estátua

Ao Jerônimo Guedes Fernandes

Fita o cinzel; acaricia o bloco, hesitando na escolha do modelo…
Deixa-o… De novo toma-o, vai revê-lo, ainda, e talha-o.
Quer torná-lo uma obra-prima,
antevendo as primícias
da glória que o anima.

Na tela da sua imaginação
insinua-se, em roxas pinceladas,
o vulto melancólico do Cristo,
por entre as oliveiras enluaradas,
rezando a ladainha da agonia,
a chorar para a morte.

No painel de sua alma
vão se esboçando os marfíneos querubins
que orvalham, soluçando eternamente,
as ramagens de perfume deletério…

E o bloco vai talhando, na incerteza…
Traça-o mais, fere-o,
fere-o a esmo, fere-o mais…
E de suas mãos fecundas, divinais,
surge inesperadamente,
ante os seus olhos admirados,
não como um qualquer vivente,
a forma airosa, alvíssima e tranquila
de um corpo de mulher, a sorrir para a vida.

Em extase a adora, e vai, depois, ungi-la
com os clarões do seu cérebro.
E ao dar-lhe a celestial unção de luz,
a escultura viveu,
sonhou, amou, sofreu.

Passaram-se os anos.
O artista entrando, um dia, na oficina,
ouve um rumor de doloridos ais,
como notas em surdina,
amargurado e triste.
Era a estátua que chorava.

– Que tens? Que mais queres?
Dei-te a alma, dei-te vida e dei-te um coração…
Esse teu pranto em que consiste?
Vibra e sonha. Porque não sonhas e não vibras?
Não vês que o meu escopro iluminou-te as fibras?

– Bem o sinto. E eu sonhei… amei.
Mas a trama da lei do meu destino,
que amainar não pudeste,
tornou amargo o meu viver…
Aqui me falta o ar,
porque muito me aclaraste
a alma que sofre, que ama,
e a cabeça que pensa.
Antes nunca me fizesses compreender
o vil despeito, a inveja, a ingratidão,
a mentira e a hipocrisia
que vão por esse mundo inteiro, vão…
Leva-me para a minha jazida.
Não quero mais sonhar nesta mansão dourada…
Quero viver no meu sem-forma, no meu nada,
para nunca me lembrar, um momento siquer,
que tive coração… e fui mulher !

Fátima Cléu
Julho de 1934

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