O Feitiço da Pedra de Cevar

Autoria: Mario de Arantes.
Publicado na Folha Nova, nº 59,
em 14 de Março de 1915.

Uma tarde de Setembro de 1881, estava no portão de uma chácara da Rua da Palha (hoje, Rua Sete de Abril), em São Paulo, onde morava por conta dos estudos, quando apareceu um chileno coberto por uma pala riograndense, carregando um piquá a tiracolo e disse-me:
-O senhor quer comprar uma pedra de cevar?
-Mas, o que é isso?
-O senhor não conhece a pedra de cevar? Pois é uma coisa boa. Quando o senhor conhece uma moça e ela não gosta do senhor, toque numa fruta com a pedra de cevar e ofereça a fruta a essa moça. Ela comendo essa fruta garanto que ficará enamorada pelo senhor.
-E quanto custa isso?
-É muito barato, o preço é de 1$500.
-Dá-me uma.
O chileno abriu o piquá, sacou um embrulho de um lenço e tirou desse, com uma colherinha de pau, um pó vermelho e um pedacinho da tal pedra. Embrulhou em um pedaço de jornal e entregou-me.
Fiquei a pensar o que seria aquilo. Não tinha nenhuma namorada nem intenção de obter essa confusão. Para quê comprei essa porcaria? Gastei 1$500 à-toa. Mas, tinha a curiosidade de conhecer o efeito da tal magia. Como era? Eu aplicaria a pedra numa fruta e ofereceria a uma moça para ver se ela ficaria enamorada por mim. Não havia mal nisso. Precisava escolher ou arranjar a moça que aceitasse.
Comecei a lembrar as moças conhecidas, os meus pares de bailes. Então, lembrei-me da Candinha. Não era a mais bonita, mas muito simpática e agradável. Ela seria a vítima da pedra de cevar.
Fui ao Mercado e comprei cinco laranjas bonitas por um tostão. Em minha sala de aulas escolhi a melhor, toquei-a com a pedra de cevar e guardei-a num papel.
Convidei o Augusto Fróes, meu colega de sala a ir, à noite, na casa da família da Candinha. Essa família tratava-me com muito agrado quando aparecia ali.
Nessa noite apareceu na sala a Candinha, só. Depois dos cumprimentos e de apresentar o meu amigo, quis entregar a fruta à moça.
-O quê é isso?
-É uma laranja que trouxe para a senhorita.
-Peço-lhe desculpar-me, não posso receber esse presente.
-Por quê?
-Minha mãe entende que ninguém pode receber uma fruta como presente.
-Mas por quê?
-Porque ela sabe que a fruta pode trazer “coisa feita”.
Não sei se a cor subiu à minha face, mas sei que fiquei desapontado demais e disse:
-A senhorita desconfia do meu presente, que tem algum feitiço? Pois eu provo já aqui que não há nada na laranja.
Tirei o canivete, descasquei a laranja e comi toda, contando alguns casos de feitiços.
Voltei para minha pensão, acompanhado pelo Augusto, em um silêncio completo. Deitei-me e não pude conciliar o sono. Pensava: O quê eu fiz? Que tolice foi de comer a laranja enfeitiçada. O efeito do feitiço será contra mim.
Alguns dias minha mente estava suspensa, esperando o resultado do feitiço. Esperei uns oito dias, sem solução. Nada.
Peguei no embrulho da pedra de cevar e atirei no lixo…
Ah, estava esquecendo: Houve um efeito completo da pedra de cevar, mas foi por tabela. A Candinha é hoje a Senhora Candida Fróes, pois casou com o meu amigo e companheiro de sala o Augusto Fróes.

Mario de Arantes
Março de 1915

3 comentários em “O Feitiço da Pedra de Cevar”

  1. luiz pijak

    A pedra de cevar é um ótimo amuleto, e também conhecido no mundo todo os poderes e suas virtudes cabendo ao seu possuidor cuidá-la bem sob pena de eventuais desgostos caso não a trate bem.

  2. Eliane Anacleto de Souza

    Boa noite, achei a história muito interessante. Mas peço desculpas por não ter entendido. Se o rapaz que tinha a pedra comeu a laranja, como o amigo se casou com a moça? O amigo pegou a laranja?

    1. Folha Nova

      Olá, Eliane.
      O autor utilizou uma forma de expressão literária chamada ironia, quando a intenção é justamente negar aquilo que, à primeira vista, se afirma. Não houve um efeito real da Pedra de Cevar. Esta apenas serviu de pretexto para aproximação do futuro casal.O feitiço que prendeu o casal amigo do autor foi simplesmente o amor.

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