O Oficleide do Eduardo

Autoria: Mario de Arantes
Publicado na Folha Nova, nº 54,
em 31 de Janeiro de 1915.

O Eduardo foi um preto escravo do Sr. José da Silva Gorgulho, comerciante importante no Carmo do Pouzo Alto, depois Carmo do Rio Verde e hoje Silvestre Ferraz.
O crioulo tomava conta de um negócio de gêneros da terra, do seu senhor.
Inteligente, entendeu de aprender música. O professor Fernando de Brigagão, diretor da banda musical, ensinou-lha com boa vontade. Em pouco tempo o Eduardo estava habilitado a entrar na banda.

Oficleide
Oficleide

Escolheu o oficleide para tocar, mas não tinha dinheiro para comprá-lo; preparou um cabedal de subscrição para arranjar, entre as pessoas conhecidas, a quantia suficiente para mandar ao Rio de Janeiro a comprar o tal instrumento.
A subscrição estava correndo com resultado benéfico. A esposa do Sr. Gorgulho soube disso, e foi à loja dizendo para o marido:
– Seu Gorgulho, já sabe que o Eduardo quer entrar na música? Anda com uma subscrição para comprar um instrumento! Não se pode aturar com isso…
– Oh! Oh! disse o Gorgulho, com seu “Oh” característico. Eu darei uma providência, senhora. Pode ficar sossegada.
Logo mandou chamar o Eduardo.
Este apresentou-se com a humildade como de um escravo à presença do senhor.
– Ó Eduardo, disse o Gorgulho, será verdade que está mandando correr uma subscrição para comprar um instrumento com o fim de entrar na banda musical?
– Meu senhor, é verdade. Aprendi a música e queria entrar na banda. Não tenho dinheiro para comprar o instrumento, por isso estou pedindo aos conhecidos o dinheiro para comprar um oficleide. Se arranjar este, eu vou à presença do meu senhor para pedir a licença de entrar na banda.
– Oh! Oh! Quero ver o papel.
Recebeu a subscrição e leu-a, vendo que nenhuma assinatura tinha o sinal de pagamento. Depois de alguns “Oh! Oh!”, consternado com o andamento da subscrição, rasgou-a, dizendo:
– Ó Eduardo, não é preciso pedir esse dinheiro. Eu compro o oficleide.
Que alma generosa tinha o bom comerciante!
Pouco tempo depois, num domingo, podia-se ver a banda musical atravessando o Largo da Matriz, com destino à Igreja para tocar na missa. Entre os músicos estava o Eduardo, vestido de roupa de brim branco e coberto de um chapéu de chile, empolado, tocando o seu oficleide.

Mario de Arantes
Janeiro de 1915

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