O Regresso dos Expedicionários

Autoria: Fernando Pena.
Publicado na Folha Nova, nº 1.194,
em 9 de Setembro de 1945.

Foi com as maiores e mais justas demonstrações de alegria que a população da nossa cidade recebeu, na noite de domingo passado, 2 de Setembro de 1945, os expedicionários conterrâneos que regressaram dos campos de batalha da 2ª Guerra Mundial, lutando por mais de ano em solo italiano.

Chegada

Aguardando-os na Estação Ferroviária, notamos uma comissão de recepção, autoridades e numeroso grupo de pessoas, solidárias todas às festas em tão oportuna hora promovidas pela nossa Administração Municipal e pelo Centro Municipal da Legião Brasileira de Assistência.
Recebidos oficialmente e bastante cumprimentados por todos, os expedicionários foram conduzidos de automóvel até a Praça da Matriz, onde foram homenageados com músicas, fogos de artifício, braçadas de flores e salvas de palmas por parte da multidão previamente concentrada no local.

Os Homenageados

Foram os seguintes os expedicionários que retornaram:

Nadra Chaib e
Luiz Lomônaco Bacelar,
naturais e residentes nesta cidade;

Francisco Passos,
José Jovino e
Geraldo Ribeiro da Sila,
naturais desta cidade e residentes, respectivamente, em Itajubá, São Paulo e Santa Rita do Sapucaí;

Wady Abdala
,
convidado dos nossos conterrâneos.

Discursos

Saudando os expedicionários, usaram da palavra o professor Manoel Brito, em nome da cidade, Maria Helena Coli Junho, em nome do Centro Municipal da LBA, a menina Regina Noronha, aluna do Externato São José, a jovem Beatriz de Barros Melo, aluna do Externato Nossa Senhora do Carmo, o professor Antonio Luiz Nogueira, diretor do Grupo Escolar, o Tenente Jorge Atela, Delegado do Serviço de Recrutamento, Julio Calil, em nolm e da colônia Siria e Nacle Chaib que agradeceu, em nome dos homenageados, a todos os oradores.

Na Matriz

Conduzidos à Matriz, seguidos pela massa popular e após depositarem as flores recebidas no altar da Padroeira, foram os bravos da Força Expedicionária Brasileira, FEB, saudados em inspirada oração pelo Padre José Carlos, que, após, procedeu a benção com o Santíssimo Sacramento.

Regozijo Popular

Nas residências dos expedicionários reinava, como era natural, a maior alegria, principalmente na casa do Sr. Daibs Chaib, para onde afluiu a maior parte do povo, dando expansão ao júbilo reinante e festejando até altas horas da madrugada, com a família Chaib, o regresso dos expedicionários.

No Grupo Escolar

Prestando a sua homenagem aos recém chegados, o Grupo Escolar ofereceu-lhes uma festa, realizada na manhã do dia 4 de Setembro e que teve o seguinte programa:
Prece pelo feliz regresso dos expedicionários; solene hasteamento da bandeira, ao som do Hino Nacional; discurso do diretor do estabelecimento de ensino; dramatizações, poesias, hinos e cânticos patrióticos e saudações pelos alunos; declamação pelo Juiz Dr. Pereira Brasil de um magnífico poema de sua autoria; discursos de dois alunos do Patronato; declamação, pela jovem Zilda Santiago, do poema de Fátima Cléo, publicado a seguir, e discurso de agradecimento pelo expedicionbário Francisco Passos.
A festa promovida pelo diretor, professoras e alunos do Grupo Escolar contou com o comparecimento de todas as nossas autoridades municipais, representações dos demais estabelecimentos de ensino , diversos cavalheiros, senhoras e senhoritas.

Homenagem aos Expedicionários

Num dia triste e nublado,
num dia em que havia pranto em todos os olhares…
apreensões, desesperanças e gemidos
em todas as almas…
partistes,
por mares insidiosos e desconhecidos,
em busca de outros mundos
para esmagar o orgulho e a prepotência
entre o ribombar alucinante da metralhadora,
do canhão, do petardo,
e os abalados ais dos moribundos.

E o que vos é tão caro, aqui tudo deixastes:
amor de mãe, de irmã, a Pátria querida,
a terra em que nascestes,
seus crepúsculos, suas alvoradas,
seus campos e seus montes,
para enfrentardes carrascos
perversos e bifrontes.

Graças à vossa coragem,
à vossa mocidade e esforços extraordinários,
depois das lutas mais sangrentas,
vencestes,
queridos e denodados expedicionários.
E trouxestes, cheia de glórias,
a sagrada bandeira de nossa pátria,
a bendita imagem que vos confortava
nos renhidos combates dolorosos
e nas horas melancólicas,
a que foi, nas noites indormidas,
a terna, única e santa companheira.

E agora que não mais o monstro vocifera,
sob este céu de azul puríssimo,
entre as canções iniciais da primavera,
nossos braços se estendem, carinhosos
para o momento do retorno triunfal,
porque defendestes, heroicamente,
o grandioso Brasil,
os nossos lares, nossas esperanças
e os nossos ideais.

Caros conterrâneos meus,
Emudeçamos nossos lábios, por um instante,
e levantemos o pensamento a Deus,
numa prece ardente, repassada de amor,
de angústia e de saudade
pelos nossos irmãos, inesquecíveis,
que tombaram, gloriosos,
e cujos corpos repousam em solo tão distante.

Bandeira do meu Brasil,
desdobra-te, agradecida, num sorriso amoroso,
já que teu nome hoje ressoa,
de céu em céu, de vale em vale, altivo e majestoso,
para derramares sobre teus filhos,
esses valentes expedicionários,
as rosas divinais das tuas bençãos e do teu afeto,
porque a nossa profunda e eterna gratidão
irá tecer-lhes a coroa.

Fátima Cléo
Silvestre Ferraz, Setembro de 1945

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