Olhos Verdes

Autoria: Eugenio Rubião.
Publicado na Folha Nova, nº 2,
em 18 de Janeiro de 1914.

…E deixei-me ficar, tranquilo e feliz, na vilota branca encravada entre cafezais verdes.
Entretanto, a vida aí era bem simples: levantar às oito horas da manhã, quando o sol já enviesava pelas frinchas das janelas do quarto venábulos doirados e travessos, como a resmungar:
“—De pé maganão, de pé! Nem sabes a beleza que há aqui por fora! Egéria há muito te espera com o café e os lindos olhos verdes.”
A boca ressequida a apetecer o café e o coração aos saltos por ver os olhos verdes, saltava do leito a abrir a janela e ficava logo contente, com uma alegria travessa a dar trinados de cotovia na alma de eterno contemplativo. As janelas do fundo da casa caíam para essa parte da vila que ia, graciosa e pitoresca, com suas casas de tijolos e tufados quintais de limoeiros e figueiras, galgando ondulações, até topar a montanha, onde o céu começava, esse magnifico céu de Junho que é uma ampla arqueadura azul, sem nódoas de flóculos de nuvens. E dessas bandas, habitadas de gentes rústicas, vinham sempre os alegres ruídos do amanhecer na roça: chocalhos de tropas que demandavam as serras; o rechinar dos carros de bois que iam aos milharais fartos; os berros das vacas nos currais, onde, já manhãzinha, se munge o leite quente e espumoso. E a vista ficava a espairecer, a travessear pelos longes tomados das brumas, mas já, pouco e pouco, vencidas pelo sol, numa doirada invasão…
Perto da casa havia uma touça de bambu imperial, amarelo com riscas verdes, onde os pássaros pretos costumavam vir fazer uma partitura de trilos frescos e matutinos. E com essa exaltação que há na alma de todo o meridional, ia logo buscar o livro do divino Victor Hugo. E nem poderia ir ao fim dos versos: já o sol, pelas frinchas da janela, parecia estar a resmungar com os venábulos doirados:
“-E o café, e os lindos olhos verdes?”
Passos leves ressoavam na sala contígua. Vestia-me à pressa e saía à sala, onde a encontrava. Era encantadora assim alta, fresca, enfiada sempre em vestidos claros, os grandes olhos verdes que tão bem vão às morenas, um sorriso bom na boca carminada.
E começava o que o poeta chamou enlevo da alma, lêdo e cego, em resumo o namoro, xarope bem deteriorado, mas onde ainda, às vezes, se põem algumas gotas de essências de rosa: o espírito! E havia largos silêncios, em que só os olhos começavam a fazer demorados colóquios, se bem que andassem em tão definida disparidade, uns pequenos e pretos, outros grandes e verdes…
E vinha o almoço, o delicioso almoço, face à face, nessa fresca sala de jantar, com janelas voltadas para as montanhas. Pouco se comia; a boca não curava do alimento, queria só mastigar pedaços de versos, e os olhos, esses travessos, andavam sempre a disputar, mau grado a disparidade: uns, verdes e grandes, outros, pretos e pequenos…
— Olha, como é encantador o verde longínquo das montanhas…
— Qual! teus olhos são mais verdes!
— Gosto muito de fitar a relva verde que alcatifa os outeiros…
— É por isso que teus olhos se fizeram tão verdes!
Mas Egéria precisava cuidar dos afazeres, correr à aula, onde os alunos a esperavam, de certo com o fastio que sentem os fedelhos na escola, tão cheia de números e letras, e tão parca de alegria.
E que fazer por tão largas horas?
Tomava o livro e zás! subia o morro que havia acima da casa e lá, a ventura, procurando recantos frescos, onde se possam ler os poetas debaixo de árvores, ouvindo o tagarelar dos pássaros.
A trilha enroscava-se dificilmente pelo oiteiro até ganhar o cimo, despido de arvoredo. E, em cima, toca a olhar a paisagem. De um lado eram as casas brancas da vila, situadas a meia encosta, com sua igrejola bem ao centro, de uma torre só com as suas ruas agora ermas de gente e movimento, com as magnólias esguias, as frondes quietas, sem a carícia da aragem… Do outro lado eram as ubérrimas terras de lavoura. E estendiam-se planícies, arredondavam-se cômoros, cavavam-se valos .. E nas planícies senhoreavam os pinheiros altivos; nos morros trepavam os cafezais, de ruas simétricas e copados de frutos de ouro, e nos vales elevavam-se as casinholas brancas, de certo um lugarejo qualquer, desses que a geografia não conhece e que vivem sob o padroado de uma Santa Maria qualquer, meiga e boa.
E há caminhos que vão serpenteando morros e transpondo riachos de águas claras, rumo das fazendas, que lá alvejam entre os pinheirais. E há cascatas a emergir, em lampejos de prata, dentre as moitas de árvores. Mas, o que prende a vista são os cafezais, inúmeros e compactos, vestindo os morros e descendo em filas airosas, ousados, a encontrar a linha férrea, uma riscadura vermelha, apenas perceptível…
Terra opulenta! E sem querer, vêm-me à boca versos e mais versos…
Tomo agora um caminho fundo, entre bambuais, noutra vertente do morro,e novos horizontes; árvores amigas a cobrir o côncavo macio dum vale e, é aí que vou ler, de borco, o poeta amado.
À tarde, toca a descer o morro e buscar a casa, onde há cheiros convidativos de jantar e doçuras de olhos verdes.
E sempre cara à cara, na mesma sala fresca, cujas janelas norteiam para as montanhas, agora aloiradas de sol cadente.
— Como são lindas as montanhas douradas de sol!
— É mais verde a esperança de um dia possuir o teu beijo!
— Já reparaste como vai bem o verde com o ouro?
— Por isso, sob a luz cariciosa do sol, têm outro encanto os teus olhos!
E assim desliza o jantar, em que se come pouco, mas se mastigam bons pedaços de versos românticos.
Vem o crepúsculo, como cortejo de grilos e estrelas. Pouco se vê na sala. Chegam visitas: duas velhas que se queixam de enxaquecas e de calos, e três moças que falam de namoro e riem muito.
Decididamente que vou vagabundear ao luar! Tomo o chapéu e zás! na rua, ao acaso. Evito as ruas barulhentas, com as barbearias abertas, onde se comenta o disse-me-disse e fala-se na hedionda política; e os bilhares, cheios de papalvos pelos bancos, onde jogam moçoilos apelintrados de flôr à lapela. Busco esse trecho calmo de rua, sombreado de árvores, que leva ao riacho, a cantar sobre pedras velhas mágoas… Debruço-me no parapeito a olhar a lua, alva e redonda, a pratear o fundo tranquilo das águas… Ah! se ainda houvesse napéas! De certo, a esta hora, estariam aqui a banhar as formas claras, enquanto de outra banda, entre os capitubais ásperos, contendo o ofegar estuante, o amável Pan estaria a espreitar, com os olhos acesos de volúpia.
Mas, não há mais napéas! Deixo o riacho a guaiar as suas velhas mágoas e volto para casa.

E, já passados tantos anos, ainda tenho um remorso contínuo a assaltar-me a alma: o não ter ficado para sempre na vilota branca encravada entre cafezais verdes…

Eugênio Rubião
Janeiro de 1914

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