Padre Antonio Nogueira

Autoria: João do Rio Verde
Publicado na Folha Nova, nº 1.278,
em 25 de Maio de 1941

Jamais me esquecerei daquele venerando sacerdote, cuja fisionomia, serena e meiga, se me afigurava sempre iluminada por um doce sorriso de infinita bondade.
Oh! Padre Antonio, vós que durante quase meio século não poupastes sacrifícios em prol da felicidade eterna dos vossos paroquianos, bem mereceis hoje estas palavras acrisoladas da mais sincera gratidão, da mais profunda e perene saudade. Desde a minha longínqua e saudosa infância que vislumbro na vossa augusta pessoa a de um verdadeiro discípulo do glorioso Nazareno.
Recebei, pois, lá da luminosa região celeste, estas desataviadas frases, como homenagem deste povo carmelitano que venera a vossa lembrança e, evocando-a, ensina à nova geração a história das vossas impagáveis virtudes morais e cristãs.
O Padre Antonio Gomes de Faria Nogueira era natural de Pouso Alto, vindo para a nossa terra como coadjutor do seu irmão, o “Cônego”. Por morte deste, assumiu o vicariato da paróquia, onde permaneceu durante quarenta anos, falecendo, repentinamente, na manhã do dia 6 de Janeiro de 1919.
Grande e fervoroso amigo dos pobres, praticava a caridade sem alardes.
Passou toda a sua vida fazendo o bem: socorrendo com carinho os doentes e os necessitados, glorificando a virtude e, com palavras de fogo, condenando o vício.
Somente se lhe deparava um ideal na existência e, por ele, se batia sem desfalecimentos: arrastar as almas transviadas da beira do abismo do pecado, conduzindo-as, regeneradas, ao caminho da virtude e ao esplendor do amor de Deus.
Como Cristo, porém, o Padre Antonio também sofreu a injustiça e a ingratidão dos homens. Houve uma época em que alguns moços melindrados com uma prática do querido vigário, pretenderam desacatá-lo, tendo mesmo alguém, a golpes de canivete, gravado na cal da parede de de uma das tribunas da igreja matriz, algumas palavras ofensivas à moral inatacável do virtuosíssimo pároco.
Alma simples e coração boníssimo afeito ao verdadeiro amor do próximo, ele não soube suportar em silêncio o peso de tamanha calúnia: encerrou o Santíssimo Sacramento e retirou-se para a sua capelinha privada, lá do alto, não pretendendo retornar à matriz.
O povo não se conformou e, em brilhante manifestação, foi buscá-lo. O orador, em nome dos carmelitanos, terminou o seu discurso sufocado por grande emoção, pois, chorava o Padre Antonio e choravam centenas de pessoas presentes.
Este orador foi o Sr. Lulu, católico fervoroso, educador e culto homem de letras, falecido em 1904. Era pai do professor Antonio Luiz Nogueira, diretor do Grupo Escolar Gabriel Ribeiro.
Mais tarde os referidos rapazes, num belo gesto de humildade e de nobre e sincero arrependimento, pediram perdão ao justo vigário, beijando-lhe, de joelhos, as santas mãos.
Com a visão da saudade, como que ainda vejo, no púlpito, com a sua batina descorada e com os olhos nimbados de amor divino, aquele representante do sublime Crucificado, mostrando aos fiéis, com fé inquebrantável, a vereda tortuosa do pecado e a estrada resplandecente da salvação eterna.
E, por certo, lá do céu, o Padre Antonio continua zelando pela sua amada paróquia.
Eis a razão por que a nossa terra só tem contado à frente dos seus destinos espirituais, como condutores de almas, devotados interpretes da gloriosa religião legada à posteridade há vinte séculos, no topo do Calvário, pelo imortal Rei dos Reis.

João do Rio Verde
Maio de 1941

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