Descoberta das Águas de São Lourenço

Carta de autoria de Carmelitana de Arantes.
Publicada na Folha Nova, nº 106,
em 13 de Fevereiro de 1916.

Da nossa estimável colaboradora de São Paulo, Carmelitana de Arantes, recebemos a seguinte carta:

Sr. Américo Pena,

Amistosas saudações.
Li qualquer coisa na Folha Nova sobre São Lourenço. O senhor conhece os princípios daquele lugar?
Distante uma légua, pouco mais ou menos de onde é hoje São Lourenço, era a morada de um senhor Viana, homem abastado e dono daquelas terras. Em princípios do ano de 1863 apareceu em nossa casa o senhor Viana, muito assustado, pedindo uma conferência a meu pai, Tomas Joaquim Arantes, que era o oráculo daquele povo da roça.
Contou-lhe que em terras de sua fazenda apareceram algumas minas d’água que ferviam e davam estouros que metiam medo! Meu pai mandou logo aparelhar um cavalo e seguiu com o senhor Viana para observar aquelas águas assustadoras. Voltou à noite, trazendo garrafas da dita água e areia das suas fontes, que remeteu para o Rio, onde deviam ser analisadas.
Dias depois chegou uma comissão do Rio para examinar as águas; eram médicos e químicos. Foram as águas classificadas como superiores às de Lambari, porque algumas minas, ou a maioria delas, continham muito ferro, além de outros sais.
Por esse tempo, quem escreve estas linhas estava muito anêmica e precisando de tratamento sério. Um dos médicos da comissão dissera:
– Esta menina para ficar completamente sã, basta usar estas águas por algum tempo.
Meu pai e o tio Luiz Noronha foram, com uma porção de negros armados de foices e machados, abrir uma estrada, derrubando grande extensão de mato em volta das minas. Construíram casinhas de sapé e para lá seguimos eu, minhas tias Maria Ernestina de Noronha, Beatriz Flávia de Noronha e o pequeno Zequinha (depois Dr. Zeca Gorgulho). Escravas, móveis e mantimentos foram em carros de bois.
Meu pai mandou arranjar as minas a poder tirar água e a um dos poços foi arranjado um estrado com grandes furos, no centro de uma casinha rústica. Era o nosso banho. A água fervia com tanta força que, entrando por aqueles furos do estrado, dava cada estouro que metia medo.
Dois meses de estadia naquelas santas águas, estávamos todos gordos, corados alegres e satisfeitos.
Eis aí como principiou o uso daquelas águas, que deveriam chamar-se São Tomas, porque foi meu pai, Tomas Joaquim Arantes, quem trabalhou e fez tudo para que elas fossem analisadas e conhecidas. Foi ele quem delas providenciou o seu primeiro uso terapêutico.
A criada que o estima e o admira,

Carmelitana de Arantes,
São Paulo, Fevereiro de 1916.

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