Reminiscências da Rua Direita

Autoria: Mario de Arantes.
Publicado na Folha Nova, nº 91,
em 7 de Novembro de 1915.

Tenho saudades do tempo da minha infância e das criancices, quando andava a cavalo no meu Bainho, em pelo, engarupado com o meu primo, o Totó, a procurar pinhões pela encosta ou pitangas pela varzea. Tenho saudades calmas e doces do Carmo que foi o meu berço. Tenho saudades dos passeios, nos quais eu acompanhava as moças, com grande intimidade entre si.
Naquele tempo a vida provinciana passava facilmente alisada. Hoje… só tenho saudades.
Até tenho saudades da Dª Ana Bernardes, nossa vizinha. Ainda lembro das broas doces que ela me oferecia.
E lembro dos porcos que ela criava soltos na rua. Tinha uma leitoa que era o tormento da vizinhança. Esse animal intrometido, como um gatuno, entrava nas casas alheias e abocanhava tudo o que achava. O Domingos, nosso escravo, tinha-lhe grande quizília; jurava que um dia mataria “esse diabo”.
Uma vez, era uma manhã no inverno, eu com meus irmãos a “quentar o fogo”, na varanda, passou a tal porca correndo e foi à cozinha. O Domingos, logo que a viu, gritou:
-É agora!…
Pegou na mão de pilão e deu uma pancada na gatuna. A porca voltou pela varanda, arrastando um quarto traseiro deslocado.
A Norica, minha irmã, ao passar esse fantasma, pegou numa acha de lenha, dizendo:
-Ainda corre… Espera!
Deu-lhe uma pancada a qual caiu no mesmo quarto deslocado, mas de baixo para cima, o que deu lugar de aparecer o diabo atrás da porta: A porca, com esta “achada” concertou o quarto desconjuntado, saindo desempenada e, posso dizer – airosa!

Mario de Arantes
Novembro de 1915

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