Riacho do Carmo

Autoria: Eugenio Rubião.
Publicado na Folha Nova, nº 425,
em 15 de Novembro de 1922.

 
A essa hora de quase lusco-fusco, encontrava-me  na ponte que transpõe esse amado riacho do Carmo, outrora uma ovante caudal verde, impetuosa e ardida, e hoje, à medida que lhe derrubam as belas matas das cabeceiras, vai-se fazendo um filete murmuro e humilde, tomado das capituvas, mostrando o areento leito onde reluzem os calhaus.
Assim humilde, assim decaído do teu primitivo poderio, como me agradas entanto, cristalino ribeiro natalício.
Ao crepúsculo, quando todo o bulício vai cessando, e só se ouve nas tuas margens o concerto da saparia a casar-se com a monótona toada dos grilos, e ao longe, longe, ressoam cantigas de lavradores que deixam o trabalho ao crepúsculo, gosto de, debruçado às grades da ponte, vir ouvir-te guaiar entre as pedras do leito.
Grimpado à encosta da colina, a vila, a pouco e pouco, pontilham-na luzes e, a um lado para além do cemitério, um extenso pasto se dilata, cá e lá bordado de árvores, em contorsões violentas de galharias no fundo opalizado do céu, onde Venus resplandece com o caricioso brilho de uma jóia pousada no colo de macia carnação.
Das tuas águas, então, onde as sombras da tarde vão tramando um suave tecido de sonho e de mistério; das tuas águas que vão, em marulhosa corrente, pela macia areia e duros calhaus – uma como dolorosa queixa sobe para o céu, que se arqueia sobre tua superfície verde em reflexos de ouro e púrpura.
Bem compreendo essa tua voz de obscura expressão, amado riacho natalício: é o teu desfeito poderio que relembras, é a evocação sentida do passado que me procuras fazer compreender, em melodioso desencanto, nessa hora religiosa da tarde.
E me falas melancolicamente de meus distantes anos infantis, que a distância empresta misterioso encantamento, e a infância passei-a toda às tuas verdes barrancas nas pescarias, nos banhos e em travêssas canoagens. Quanto dezembro tempestuoso, em companhia dos demais garotos do tempo, passei-o, ora a mergulhar na tua límpida corrente, ora a correr no escaldante lameiro de tuas margens.
E a convivência de todo o dia me fez alimentar por ti uma profunda afeição e, daí, a conhecer-te todo, em jornadas pitorescas.
Acompanhei-te em teu caprichoso curso, desde as verdes grimpas natais do Pinheirinho, donde saltas travesso e cristalino córrego e vais, espumoso, rugindo pelos grotões, até te resvalares na planície e, ora a escachoar, desces rolando sempre, banhando as férteis terras, onde o milho ergue o altivo pendão empenachado, esgueirando-se por entre barrancas escarpadas, donde a paineira desata róseas flores que, como queridos troféus, levas na impetuosa corrida.
Avolumado ribeiroo já derivas através da várzea tristonha do Pouso Alegre, bucólica região das róseas paineiras e das verdes palmeiras; tocas o moinho, fazes mover a grande roda do engenho, e depois serpeias rente ao muro de pedras enegrecidas da fazenda das Tres Barras, com seu vasto pomar de laranjeiras e a sua alegre varanda à frente, onde as roseiras se entrelaçam em bambolins perfumosos e os potes de cravos exalam o seu delicado aroma na doçura da tarde vernal.
Aumentado com o tributo de muito córrego cristalino, inapercebido e quieto, a meio escondido no capituval espesso, deslizas pela tristonha várzea da Olaria, só alegrada por volta da primavera com o reflorir das ervas-lancetas e dos esbeltos ipês.
Como que uma grande alegria te possui ao te avizinhares do branco casario do vilarejo, que ladeias numa travêssa corrida e passas, verde e sonoro, debaixo da velha ponte de madeira, a toda hora alegrada dos camponeses que passam cantando e rindo; ressoante da passada das tropas, à frente a madrinha a telintar o cincêrro, enfeitada de fitas vermelhas.
Passada a ponte, comprimes-te em corredor, outrora transposto de alta pinguela, debaixo da qual as lavadeiras vinham lavar a roupa, a cantarolar velhas cantigas, as pernas morenas afundadas na água verdoenga.
Depois, em suaves meandros entre barrancos altos, atravessas a várzea do cônego, a encantadora paragem dos bambuais verdes e chorões ressequidos que na primavera reverdeciam, envoltos dos mantos roxos das sanguinárias.
Depois de defluires por sob as arcarias vegetais do bosque da Chácara do Alto, que lá surgia na encosta, clara, cercada de vetustos coqueiros, ías várzea afora, para te atirares em cachos de espuma na cachoeira.
E te espraiavas em remansos seios verdes nesse sítio ameno em que tanta vez, na adolescência inquieta e sonhadora, vim ler as poesias que me ficaram na memória, enquanto ao ouvido ainda tenho o lânguido gorjeio de um sabiá, escondido nas frondes de uma caneleira vizinha. Assentava-me embaixo da copa de um açoita-cavalo: de um lado, a poucos passos, o moinho – uma frágil casinha de madeira; acima, na outra margem, pelo morro, a mata onde, por vezes pinheiros irrompiam para o ar seus para-sóis verde escuros.
A meus pés, a rampa ia macia até à tua margem, amado riacho, a tua superfície a refletir a doce opalescência da tarde, onde o sabiá soluçava ainda a sua melancólica canção.
Não me fizeste a mim poeta, riacho do Carmo, mas fizeste-me amar de uma estranha afeição as verdes terras que irrigas, desde a serra do Pinheirinho, onde nasces esperto e límpido riacho, até a fazenda da Barra, já ribeirão caudaloso, depois entrando ovante o leito do rio Verde, a confundir com suas águas as tuas águas de altivo tributário.

Eugenio Rubião
Novembro de 1922

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