São Lourenço

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1.331,
em 21 de Junho de 1942.

São Lourenço – a linda e pitoresca estância hidro-mineral, jóia de raro valor engastada nas cordilheiras verdejantes de Minas Gerais, onde a saúde jorra perenemente, concretizada nas suas maravilhosas águas medicinais – foi, outrora, um prolongamento do nosso pequenino e venerado Carmo do Rio Verde.
Aí! que saudades eu sinto daquela São Lourenço do século passado, quando contemplo a moderna e bela cidade dos dias que correm, com as suas esplêndidas avenidas pavimentadas, praças artisticamente ajardinadas, possuindo ainda meia centena de modernos hotéis, construídos em redor do encantador lago artificial, semeado de pequenas gôndolas venezianas, lembrando os famosos lagos suíços que serpenteiam nas fraldas dos montes nevados.
E, ante a formosa São Lourenço que ora se nos depara cheia de encantamento, eu evoco, com o coração saudoso, numa visão nebulosa do passado, aquela humilde São Lourenço de antanho, com as suas ruas estreitas e empoeiradas, onde rodavam morosos carros de bois; aquela pequena povoação com as suas fontes miraculosas escondidas por entre arbustos rasteiros e flores campestres, sob a guarda do velho jardineiro Pedro Santiago.
Quanta vez, na minha infância longínqua que já se perde na grande noite dos anos, eu palmilhei a vetusta estrada que ligava o meu Carmo do Rio Verde a São Lourenço, cavalgando um “punga” alugado ao Zé Elias, a um mil réis por viagem, mas sem direito de usar esporas ou chicote. José Elias, cunhado do célebre João Beatriz, ouviu certa vez a sua filha Maria soletrando que “fazer mal aos animais é indício de mau caráter”. Pediu, então, ao jovem professor Alfredo Gorgulho que lhe traduzisse aquele “latim”, sendo prontamente atendido. Daí o carinho que dispensava aos cavalos, não permitindo maltratá-los.
Com que satisfação eu avistava, ao longe, o casario branco e esparso de São Lourenço. Apressava, então, o trote do matungo, atravessando aquelas ruelas abandonadas, que mais se assemelhavam a trilhas riscadas por entre o matagal, vencendo numa hora os nove quilometros que separam as duas localidades.
Com que deslumbramento eu ouvia, na curva do corte, o apito da Minas e Rio, verdadeiro silvo, quando a pequena e possante locomotiva se aproximava do velho barracão de tábuas, ao lado oposto da confortável estação de hoje, o qual, naquela época, tinha também o nome de estação.
Oh! como me lembro de certa madrugada em que, fugindo da casa de meus pais, de calças curtas e descalço, em companhia de alguns garotos da minha idade, a pé, acompanhei até São Lourenço os animais que transportavam no dorso os padres Miguel e Lourenço.
Dir-se-á que ouço ainda os acordes da corporação musical do maestro Joaquim Fernandes, no alto da pedreira, espargindo pelas quebradas e colinas, os sons estridentes da marcha “Mato Grosso”, na hora em que os primeiros raios dourados do sol iluminavam as estradas embranquecidas pelo orvalho matutino.
Como tu eras, então, diferente, minha São Lourenço de outrora. Hoje és uma próspera cidade povoada de atrativos e, como a Fênix da fábula, ressurges triunfal das ruínas do teu passado distante.
Pela magnificência das tuas águas de onde brotam vigor e saúde, pela amenidade invejável do teu clima salubre e, enfim, pela tua admirável situação geográfica, és, entre as tuas irmãs mineiras, a feliz detentora do diadema de rainha. Por todos esses incomparáveis atributos de que és dotada, mereces a simpatia e a preferência do eminente estadista que, para honra e gloria da nacionalidade, dirige os destinos da nossa abençoada terra brasileira.
Recebes, anualmente, a visita de milhares de veranistas que, de todos os quadrantes do país, buscam em tuas fontes miraculosas, nesse sítio ameno e tranquilo, localizado a perto de 900 metros acima do nível do mar, lenitivo para os seus males, nessa estação sossegada, entre paisagens belíssimas que se sucedem, até, numa perfeita perfeita ilusão de ótica, encontrar o azul infinito e majestoso do céu. Entretanto, eu desejaria, como acontece nas lendas mágicas, onde há fadas encantadas e gênios misteriosos, rever aquela minha poética São Lourenço dos tempos ditosos da minha meninice, a qual, através da mais dorida saudade, ora evoco, nesta página repassada de suaves recordações.
Revejo aquelas casas toscas de estilo antigo, espalhadas por entre os bosques, ou meio submergidas nas águas transbordantes do Rio Verde, quando por ocasião de inundação, após copiosas chuvas. Lá está, no aguaceiro revolto, a bela vivenda mandada construir pelo Zequinha Bernardes, transformada numa verdadeira Arca de Noé.
Velo ainda o Hotel Veneza, de Luiz Dioti e, posteriormente, no São Lourenço Velho, o Hotel Bon Sejour, sombreado por seculares e ramalhudas árvores.
Diviso ainda aquele chalezinho de fachada azul, pertencente ao querido conterrâneo Gabriel Ferrer, onde os carmelitanos eram sempre recebidos carinhosamente.
Contemplo, como se presentes ainda estivessem entre nós e não houvessem partido para a misteriosa viagem eterna, as fisionomias amigas de Zeca Justino, Angelo Hipólito, João Pereira e tantos outros que, com devotamento e amor, guiaram São Lourenço nos primeiros passos na senda vertiginosa do progresso.
Dize-me, São Lourenço moderna, a razão por que, em vez de, com os teus encantos de hoje, eu te preferiria rever como tu eras outrora, pequena, humilde e quase despovoada?
As perspectivas externas vêmo-las apenas como reflexo do nosso interior psíquico. Eu te estimei tanto outrora, São Lourenço, guardando a tua imagem no recesso de meus sonhos, porque luminosos eram aqueles dias, dias em que eu palpitar na minha alma os arpejos próprios da infância, dessa quadra venturosa da existência, quando as esperanças desabrocham em revoadas nos nossos corações infantis, quais flores perfumosas numa perpétua primavera.
Como posso me maravilhar agora ao contemplar o teu surto incomparável de progresso, se hoje no meu peito só brotam cardos e espinhos, em lugar das flores da felicidade que feneceram ao desdobrar dos tempos?
Eis o grande segredo por que não me seduzem os teus soberbos enlevos atuais, e eu sofro uma cruciante e incompreendida saudade daquela época risonha que se apagou para sempre e que já não voltará nunca…nunca…
Tu, São Lourenço hodierna, bem simbolizas a mocidade em cujas almas ruidosas e sonhadoras florescem alegrias e esperanças.
E tu, minha velha São Lourenço da minha saudosa infância querida, desapareceste para sempre, imersa no insondável crepúsculo do passado, só vivendo agora, num rosário de tristíssimas reminiscências, nos corações onde viceja apenas a saudade.

João do Rio Verde
Junho de 1942

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