Semana Santa no Carmo do Rio Verde

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1.320,
em 29 de Março de 1942.

Ofereço esta crônica ao rvdmo padre José Carlos de Faria, culto e piedoso vigário de Silvestre Ferraz.
João do Rio Verde

“É esta uma semana rorejada de lágrimas e de lancinantes recordações. Cristo chagado e crucificado – eis o que há de mais pungente na história da humanidade.
Sócrates iluminou uma era com as suas virtudes, e quem há que ainda o comemora?
Catão, com o seu estoicismo, é relembrado apenas em velhos alfarrábios já carcomidos pelo correr dos anos.
Por maiores que sejam os feitos dos homens, embora se nos apresentem bafejados pela vertigem da glória, os seus nomes vão desaparecendo e os seus triunfos se eclipsam com o desdobrar dos séculos.
Mas a comovente tragédia do Calvário atravessará milênios até a consumação dos tempos, porque Jesus, por amor ao gênero humano, deixou de ser homem para, numa metamorfose sublime, se transformar em Deus. E enquanto existir viventes neste mundo que ora se entredevora envolto num oceano de sangue, a paixão do glorioso nazareno será rememorada por centenas de milhões de pessoas, que vislumbram no abençoado Filho de Davi a verdadeira felicidade eterna.”

Como era diferente a solenidade da Semana Santa nos saudosos tempos de outrora que já não voltam. Não pretendo, absolutamente, afirmar que havia mais fé no coração da nossa gente carmelitana. Eu mesmo não sei a razão por que, mas acredito que muitos conterrâneos, evocando as comemorações dos tempos idos, proclamarão a verdade dessa minha asserção.
Dizem os poetas que recordar é viver, mas não será porventura sofrer?
Relembremos, pois, alguns lances das cerimônias a que assisti “na infância querida que os anos não trazem mais”.
Domingo de Ramos…
Há um movimento desusado nas ruas e praças do arraial, pois não só as casas dos fazendeiros se acham superlotadas, como os hotéis de Siá Virgínia Turri e de Dª Maria Coli estão repletos de forasteiros.
Até as casas particulares têm como hóspedes parentes e amigos residentes nas localidades vizinhas.
Após a tradicional procissão ao redor da Matriz, o povo dispersa, levando cada católico uma palma de coqueiro, benta durante a missa oficiada pelo velho padre Marciano Carlos da Rocha Brandão, vigário de Águas Virtuosas e antigo capelão da freguesia de Nossa Senhora do Carmo do Rio Verde, o qual celebrou acolitado pelo padre José Pinto de Andrade e pelo cônego João Câncio dos Reis.
Terça-feira…
É noite e, nas casas residenciais, vêem-se pequenas lanternas de papel de seda pendentes das janelas, projetando uma claridade suave e colorida.
Dois imensos cordões de luzes movediças, como se fossem grandes vaga-lumes, serpenteiam lá em baixo no Largo da Matriz, onde se encontra armado um púlpito todo ornamentado com panos adamascados e alvas toalhas cheias de crivos e iluminado por grandes tochas a querosene.
É a procissão de Nossa Senhora das Dores ao se defrontar com a de Nosso Senhor dos Passos. Cessa o côro litúrgico e o povo, contrito, ouve a palavra eloquente do festejado orador sacro Monsenhor Felisberto, vigário de Cristina, o qual, em frases repassadas de emoção, descreve aquele doloroso encontro de Maria Santíssima com o Filho Bem Amado, transportando nas costas o pesado lenho da cruz.
Sexta-feira…
O arraial apresenta um aspecto revestido de tristeza e quase todos usam roupas pretas ou escuras.
As estrelas resplandecem no céu e a população se encaminha para a igreja afim de assistir a tocante procissão do enterro de Jesus.
O preto Zacarias, ao contrário dos demais semblantes, onde se depara um traço de profunda mágoa, dá atrevidas gargalhadas ao bater a matraca que lhe é ferozmente disputada pelo Chico Camundongo.
Especialmente convidados pelo santo e querido vigário, padre Antonio Gomes de Faria Nogueira, carregam o palio sagrado os seguintes carmelitanos: Gabriel Dias, João Dias, Lulu, Neco Ribeiro, Isidro e Nico Pereira. Preside o imponente préstito religioso, paramentado com vistosa capa d’Asperges, o padre Marcos Pereira Gomes Nogueira, vigário de Baependi.
A Nozinha Campos, irradiando juventude e beleza, num elegante vestido branco de cauda rendada, está uma Verônica encantadora, ou “um anjo do céu” valendo-me da expressão que, a meu ouvido, segredou o Tonico Coli.
Sábado de Aleluia…
Eis que é chegado o momento delirante de “romper” Aleluia. O adro da igreja está repleto de pessoas de todas as classes sociais e a criançada, impaciente, espera a queima do judas que se acha dependurado num pessegueiro, ali transplantado, misteriosamente, durante a noite.
As campainhas retinem no interior da Matriz e, em seguida, os sinos repicam festivamente. Espocam foguetes. O João Bento, auxiliado pelo Bernardo da Margarida, acende o estopim. O Judas começa a estourar, enquanto a pequenada, em delírio, dá assobios estridentes e gritos prolongados numa algazarra ensurdecedora, transformando todo aquele recinto num verdadeiro pandemônio.
Depois, como por encanto, aparece o interessante o jocoso Testamento de Judas, provocando muitos risos e também sérias desinteligências.
À tarde, nesse Sábado a que me reporto, vejo, no Largo da Matriz, na vetusta escadaria de pedras da casa do Siô Américo Dias, o João Afonso revoltado, brandindo um cacete e ameaçando agredir alguém. Guiado pela curiosidade, eu procurava aproximar-me do local, quando, à porta da farmácia do Siô Rubião, ouço o Genico contando ao pai que o Zito do Siô Lulu e o José do Siô Braz, dois garotos levados da breca, foram provocar o coitado do João Afonso, perguntando-lhe se ele queria vender o “rabicho arrebentado” com que o Judas o contemplara no testamento. Daí toda a raiva do pobre velho paralítico.
(Desfolho aqui um ramalhete de saudades em memória do querido José Antonio Lomônaco – coração construído de afeto e de bondade – prematuramente arrebatado, pela morte crudelíssima, do regaço da família por ele estremecida e carinhosamente venerada.)
Meu bom amigo João Afonso, se tu ainda fosse vivo, humildemente, eu te pediria hoje perdão pelo ato injusto praticado por aqueles dois conterrâneos endiabrados, pois eles, naquela época, não tinham o discernimento bastante que os fizesse respeitar as tuas cãs e se apiedar da tua fraqueza mental.
E todos os anos surgia como nota faceta, ao sábado de Aleluia, o popular testamento do Judas com legados espirituosos e, às vezes, bem ferinos. Jamais foi descoberto o autor ou autores do irrisório documento. Houve quem atribuísse a sua autoria ao Chico Campos de colaboração com o Alcides Porto, mas tal versão nunca se positivou. Certa vez o Zeca Morais, mocinho de muita vivacidade e inteligência, contou ao Luciano Ferrer que vira, à noite, no quarto, o seu irmão João escrever numa folha de papel almaço a palavra Testamento.
Chamado, porém, à fala o João Morais, por certo indivíduo melindrado com a mordaz doação do Judas, o João provou que de fato havia escrito a referida palavra, mas era a copia de um testamento, atendendo ao pedido do advogado Paulino de Araujo.
Domingo da Ressurreição…
Desperto. No relógio da casa de meus pais soam quatro horas da madrugada. Faço a minha oração matinal. Ouço, para as bandas da “Maria Preta”, o rufar seco dos tambores da congada chefiada pelo Lourenço da Flora; escuto, ainda, o grito selvagem dos “mouros”: “Santo Antonio de Lisboa, valei-nos hoje neste dia.”
A corporação musical dirigida pelo maestro Pedro Campos, na rua, rompe o vibrante dobrado Coração Franco. Os sinos bimbalham festiva e estridentemente anunciando que se aproxima a hora da encantadora e poética procissão da Ressurreição do Divino Salvador.
Não posso continuar, queridos conterrâneos, pois a minha mão está trêmula e os meus olhos se enublam de lágrimas.
Recordar não é viver: é sofre, é chorar, é morrer.
Ah, que saudades cruciantes eu sinto daquele passado longínquo e feliz que já não voltará.

João do Rio Verde
Março de 1942

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