Sonetos sobre honradez e paixão

Por várias vezes, em programas de rádio, televisão e até mesmo nas mídias escritas, aparecem citações de autores e poetas famosos, o que é muito bom. Infelizmente ocorrem alguns equívocos, tanto do conteúdo divulgado quanto da autoria da obra. Um dos equívocos mais recorrentes é a citação de um soneto de Vinicius de Moraes, o Soneto da Fidelidade, quando afirmam ser do poeta a frase: “Que o amor seja eterno enquanto dure”, frase que Vinicius de Moraes nunca, jamais, disse ou escreveu. Aliás, ele afirmava justamente o oposto, não aceitando a eternidade do amor. Eis o maravilhoso hino de amor de Vinicius de Moraes:

Soneto da Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto,
Que mesmo em face do maior encanto,
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive,
Quem sabe a solidão, fim de quem ama,

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama,
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes, “Antologia Poética”, Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96. (Matéria original do site Releituras)

Esta é a frase do soneto de Vinicius de Moraes que tantas vezes é citada equivocadamente: “Que (o amor) não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. É óbvio que dizer “que o amor seja eterno enquanto dure” é uma contradição lógica, impossível de acontecer, pois acabando o amor acabaria a eternidade.

O segundo soneto, embora bem mais antigo, diz respeito a um tema que o nosso Poder Judiciário deveria refletir com sinceridade, depois de tantas demonstrações de desequilíbrio com o julgamento de exceção do apelidado Mensalão. Este soneto, de autoria de Thomaz Antonio Gonzaga, foi escrito quando o jurista deixava a Ouvidoria da Comarca de Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto,  promovido a desembargador da Relação da Bahia (1789), deixando em versos a sua prestação de contas como juiz em Vila Rica:

Soneto

Obrei quanto o discurso me guiava,
Ouvia os sábios quando errar temia,
Aos bons no gabinete o peito abria,
Na rua a todos como iguais honrava.

Julgando os crimes nunca o voto dava
Mais duro ou pio do que a Lei pedia,
Mas devendo salvar o justo, ria,
E devendo punir o réu, chorava.

Não foram, Vila Rica, os meus projetos
Meter em férreo cofre cópia* de ouro
Que farte aos filhos e que chegue aos netos.

Outras são as fortunas que me agouro
– Ganhei saudades, adquiri afetos –
Vou fazer destes bens melhor tesouro.

Thomaz Antonio Gonzaga

* Cópia: imensidade, grande quantidade.

Vejam que, apesar da posição de destaque que Thomaz Antonio Gonzaga desfrutava como ouvidor em Vila Rica, então no auge do Ciclo do Ouro, o poeta não conseguiu realizar seu intento de casar-se com a jovem Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão, a pastora Marília de seus poemas, por oposição da família da noiva que o considerava pobre.

Enfim, dois sonetos que nos fazem repensar nossos valores quanto ao amor e à cidadania.

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