Terra Natal

Autoria: Plínio Motta.
Publicado na Folha Nova, nº 430,
Em 15 de Novembro de 1922.

De contar eu não me acanho
O que vou contar agora:
Nos belos tempos de antanho
Assim despontava a aurora.

Eu, humilde camponesa,
Cobria-me dos primores
Que enfeitam a Natureza,
Principalmente de flores.

Ao vestir-me a Primavera,
Essa estranha costureira,
Que encantadora que eu era,
Que campesina faceira!

Eu era toda catita,
Tão simples como a criança;
Nem mesmo um laço de fita
Sabia prender à trança.

As tolas danças modernas,
Não conhecia, essas danças
Onde se veem muitas pernas
Iguais às pernas de gansas.

Só se usava o bailarico,
Onde tio Paula, um velhote,
Fazia com o pó de mico,
As moças darem pinote

Os meus filhos, minha gente,
Passavam sem dissabores,
Viviam humildemente,
Como helênicos pastores.

Aqui e ali, pelo monte,
Corria-lhes mansa a vida,
À maneira de uma fonte
Por uma varzea florida.

Era adornado por flora
O meu seio todo alpestre;
Pouca silva tenho agora,
Apesar de ser Silvestre.

Quem evoca é semelhante
Ao coveiro desgraçado:
Desenterra, a todo instante,
As ilusões do Passado.

Mas, pesar da mágoa ingente
Que meu coração crucia,
Minha alma, ao fazê-lo, sente
Uma agridoce alegria.

Por isso, com atroz saudade,
Evoco os dias de outrora;
Eles tem-me a suavidade
Da lactescência da aurora.

E é cada dia que passa,
Nimbado de ouro e violeta
-Borboleta que esvoaça
Empós outra borboleta.

Que dor, parece infinita!
É como a de um espinho agudo;
Minha alma toda se agita
Ao recordar-me de tudo.

Do tempo, já vai tão longe,
Em que o maestro Quintino,
Com suas barbas de monge,
Dava lições de violino.

Em redor toda a criançada
Estudava com alegria,
Bocas cheias de cocada,
Que ele mesmo vendia.

E, assim, com a boca cheia,
Eram-lhe as vozes grunhidos:
Roncava em cada colcheia,
Guinchava nos sustenidos.

Quando o Zeca, o ex-delegado,
Que mora no alto do morro,
Inda usava, descuidado,
Sapatinhos de cachorro.

E de quando o Plínio Motta,
Que se arvora, hoje, em letrado,
Vivia a dar cambalhota
E a quebrar verso e telhado.

Quando o Fernando Moreira
Tocava o seu cavaquinho.
Noite alta, que pagodeira,
Como chorava no pinho!

Hoje o Fernando é batuta,
E só pelo Estado zela;
Agora ninguém o escuta
A cantar o “Abre a janela”…

Lembro-me da bonecada
Do Pedro Campos, que bela!
Enlevo da criançada
Tão travessa e tagarela.

Onde havia um ‘seu’ Severo
Todo pachola e bonito,
Trajado com todo esmero,
Como se veste hoje o Brito.

Onde congadas havia,
De um forte batuque insano.
Que algazarra, que folia,
Semelhantes às do Feliciano!

E, também, um calafate
Tão magro como o Genaro…
*  *  *  *
Basta, Musa, dá remate
Ao meu evocar tão caro.

Cessa o canto, que ele é triste,
Parece mais um gemido.
Que profunda mágoa existe
Em cada verso aqui lido.

Como um floco de fumaça
Tudo se foi como veio;
Só a saudade não passa
E, acerba, me punge o seio…

Plínio Motta
Novembro de 1922

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