Tio Luiz e o lenço branco

Autoria: Mario de Arantes.
Publicado na Folha Nova, nº 93,
em 21 de Novembro de 1915.

Ninguém veja nestas palavras a falta de atacar a memória de um respeitável cavalheiro, enquanto vivo, e digno de todas as honras na eternidade, como foi o Sr. Luiz José Monteiro de Noronha, conhecido por “Tio Luiz” pelos parentes e amigos. Escrevo este continho em boa fé.
Para ele, além do parentesco, eu consagrava uma verdadeira amizade e ainda conservo a veneração à sua memória. Não é a primeira vez que escrevo sobre o respeitável extinto: Pode-se ver nos “Apontamentos Genealógicos da Família Noronha” modesto trabalho deste seu criado.
Eu poderia secundar as palavras da “Procelária” insertas nas “Efemérides Mineiras”, de 23 de Fevereiro de 1897.
O Tio Luiz quando moço gostava de namorar, na falta de outra diversão no Carmo, pelo ano de 1840. Ele passava as tardes em frente de uma casa sobradada, no largo da Matriz, que depois pertenceu ao Sr. José Andrade Peixoto e, em 1885, era residência do Dr. José Paulino Ribeiro Gorgulho. Seu intuito era ver a Firmina, moça duma família conceituada (que depois emigrou para o sertão de Casa Branca, na Província de São Paulo) e esperar ser correspondido por um olhar terno e choroso.
Uma vez o Tio Luiz permanecia na porta da casa do Sr. Luiz Gomes Nogueira (essa casa em 1861 pertencia ao Sr. Gabriel Ribeiro Junqueira e em 1885 nela eu entrei a visitar o João Antonio, já doente) que era num canto encoberto das vistas indiscretas, a chocar uma janela e esperar aparecer a Firmina. O namorador era míope e a distância do posto de sentinela à janela mirada não era pequena. Após algum tempo de mortificação, viu na adorada janela aparecer um lenço branco abanando…
-Ora! Isto é comigo, disse o conquistador. Respondo já.
Sacou da algibeira interna da jaqueta riscada de azul e branco um lenço de seda da Índia e começou a sacudi-lo em resposta.
O lenço branco desceu da janela, desaparecendo. Tio Luiz também parou com as sacudidelas do seu lenço.
Um minuto depois ressurgiu o mensageiro amoroso abanando desesperadamente. O namorado repetiu o exercício do lenço de seda, dizendo consigo:
-Não conheço estes sinais. Logo eu encontrarei o Thomazinho, que é mestre dessa arte, e ele me dará uma explicação.
Como diz o ditado: “Fala no mau e apronte o pau”. Logo o Thomasinho (meu pai) foi aparecendo, com passos mansos de pisar em flores, vestindo jaqueta e calças de brim branco, coberto de chapéu de Chile, ocupando um colarinho enrolado por uma manta de seda azul, à guisa das gravatas atuais, e calçado com sapatos sem salto e com fivelas. Ele tinha os cabelos crespos e pretos como azeviche, deixava-os crescer a formar madeixas. Usava barba passa-piolho. Era considerado um janota e um Adonis nas coisas amorosas.
O Thomazinho, com a sua natural desenvoltura, aproximou-se ao seu tio, amigo e companheiro de aventuras e perguntou:
-Oh, Tio Luiz, o que está fazendo?
-Pois não vê? A Firmina está sacudindo o lenço para mim e eu respondo, acenando para ela.
-Oh, Tio Luiz, aquilo não é lenço, não; é uma rama de algodão cardado que a velha (avó de Firmina) está fiando na roda.
E caíram na risada.
Nessa época ambos eram moços. Tio Luiz contava 21 anos de idade e meu pai contava 20 anos. Para eles tudo acabou em gargalhadas… Oh! belo tempo da mocidade.

Mario de Arantes
Novembro de 1915

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