Tonico Noronha

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1.314,
em 15 de Fevereiro de 1942.

Li, há tempos, um interessante estudo filosófico subordinado à seguinte epígrafe: Os bons não devem morrer.
Já, porém, que não é possível a nós, seres humanos, alterar as leis divinas que regem o mundo, procuremos imortalizar na lembrança e na saudade as almas boas que dormem o sono eterno.
Não sei de melhor coração que tenha pulsado neste querido pedacinho de Minas Gerais, do que o do “Siô” Tonico Noronha, falecido há mais de quatro decênios.
Foi ele um carmelitano boníssimo e chefe de família modelar. Era filho do Tio Luiz e “Siá” Nenê, estimado casal que já conheci bem velhinhos, no “Alto”. (Possivelmente recordarei numa destas crônicas – crônicas escritas com o coração – a Chácara do Alto ou Chácara do Tio Luiz, o tio de toda gente.)
O Sr. Antonio Luiz Monteiro de Noronha morava no largo da matriz, na mesma casa onde ainda hoje residem as suas filhas Nenê e Maria Noronha, dignas professoras do Grupo Escolar Gabriel Ribeiro, e era casado com a distinta senhora Mariana Ernestina de Noronha que, por muitos anos, exerceu com grande zelo e a contento geral o cargo de agente do Correio.
Naquele tempo o referido prédio em sua dependência térrea servia de grande depósito de fumo em corda, ramo do comércio que o “Siô” Tonico praticava em larga escala. Dedicava-se, ainda, com esmerado capricho, à criação de canários belgas e de várias outras espécies de pássaros, enchendo esses cantores alados de trinados alegres a confortável moradia.
Numa gaiola maior, feita em cana do reino, vivia, na sala de jantar, um belo sabiá que, pela suavidade do contínuo9 gorgeio, era considerado por todos como sendo o regente da original orquestra, embora lhe faltasse uma das vistas.
A epidemia do tifo irrompeu no Carmo do Rio Verde, ceifando vidas preciosas. Eis que toda a população se mostra consternada ao saber que Tonico Noronha queimava em febre havia dias e que os médicos perdiam a esperança de vê-lo restabelecido. Como derradeira tentativa transportaram o querido enfêrmo para um sobrado ao lado da igreja, na espectativa de que uma mudança do local provocasse uma rajada de melhoras.
O doente, entretanto, entrou em agonia e, à sua cabeceira, multiplicavam-se as lágrimas.
Procurando sempre narrar com fidelidade alguns fatos ocorridos no Carmo de antanho, não devo silenciar agora um curioso episódio que se deu na hora da morte desse justo de saudosa memória.
Um silêncio profundo reinava no velho casarão, apenas quebrado pelo soluço, em surdina, dos parentes.
Os três filhos menores do moribundo – o Quim, a Amalia e o Luiz – encostados na parede do corredor, de quando em quando caminhavam vagarosamente na ponta dos pés e, parando à porta do quarto, espiavam o seu interior, como se temessem o triste desenlace que se aproximava.
Algumas pessoas, apiedadas, comentavam aquele gesto de tristeza dos três garotinhos.
Mas, como saberão os meus bons conterrâneos, outro era o objetivo das três inocentes crianças.
Eis que “Siá” Balbina anuncia, entre lágrimas, a morte resignada e santa de Tonico Noronha, os três pequenos disparam, enrão, vertiginosa carreira largo abaixo, pois cada qual se julgava com direito de tomar posse do apreciado passarinho a que me referi.
Após alguns minutos se deparavam pedaços da gaiola em todos os cantos da sala e a pequenina Amalia chorava com o rosto ensanguentado, notando-se ainda arranhões nas faces do Luiz e do Quim.
Na ramalhuda nogueira no vizinho quintal do Dr. Zeca, um belíssimo sabiá cego de um olho, entoava um melodioso hino à liberdade.
Esse dia, dia do falecimento do sempre lembrado Tonico Noronha foi de imensa tristeza: a família perdeu um chefe carinhoso, a sociedade carmelitana viu-se privada de um filho muito digno; o céu, todavia, ganhou uma grande alma para enriquecer a sua côrte celestial.

João do Rio Verde
Fevereiro de 1942

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