Três Monumentos Históricos de São Lourenço

Rubens de Levy

Especial para A NOTÍCIA

10 de Outubro de 1963

Eram três os monumentos históricos de São Lourenço: a primeira casa construída na Estância, a primeira estação da Rede Mineira de Viação e a Capela de São Lourenço, erguida na colina a cavaleiro da fonte Magnesiana.

Desses três monumentos históricos, só resta a Capela. Os outros dois – a primeira casa e a primeira estação ferroviária – foram destruídas há menos de três anos, ante a indiferença dos homens públicos locais.

A PRIMEIRA CASA

Em 1890, logo depois que comprou de Adolfo Schmidt as terras situadas à margem esquerda do ribeirão do Viana, hoje ribeirão São Lourenço, o comendador Bernardo Saturnino da Veiga construiu, num recanto dessas terras onde se localiza hoje o bairro “São Lourenço Velho”, a primeira casa do lugar, para sua residência e para a instalação dos escritórios da empresa que ele tinha em vista organizar, no Estado de Minas Gerais, para a exploração industrial das Águas do Viana, primeira denominação das Águas de São Lourenço.

Nessa casa, logo no ano seguinte, foram lavradas as escrituras de compra e venda pelas quais o Comendador e outro venderam à Companhia das Águas Minerais de São Lourenço, que acabava de se constituir, não em Minas, mas em São Paulo, as terras situadas às margens esquerda e direita do Rio Verde, que sempre integraram o patrimônio daquela empresa e das que lhe sucederam.

A casa edificada por Bernardo Saturnino da Veiga marcou a fase inicial da construção da cidade de São Lourenço.

Levantada, foram se agrupando em seu redor outras casas e estabelecimentos, que formaram naquele sitio o primeiro núcleo povoado. Este não pode ampliar-se, pois lhe era desfavorável a topografia do lugar. Não obstante, pretendia centralizar a vida da estância incipiente. Resultado: retardou de mais de vinte anos o desenvolvimento da localidade.

Aquele recanto, acanhado, mal situado, não oferecia, evidentemente, condições que o tornassem local ideal para início da formação da nova cidade.

Outros sitios daquele vale profundo e largo vale das “Águas do Viana”, mesmo as baixadas, mas de preferencia as encostas soalheiras, estariam em muito melhores condições para receberem, inicialmente, o núcleo definitivo, que se desenvolveria para transformar-se na cidade idealizada pelos Veigas.

Mas os primeiros formadores da Estância teriam encontrado dificuldades aparentemente insuperáveis para darem ao problema a melhor solução. Teriam eles concluído que qualquer construção, mesmo leve, fosse praticamente impossível na várzea pantanosa, e difícil nas colinas ensolaradas, por se acharem estas mais distantes das fontes e delas separadas pelo mesmo pantanal então intransponível.

Na época, o sítio que o Comendador escolhera para beneficiá-lo com a sua casa de residência era o de mais fácil acesso, próximo às fontes, de nível mais alto, portanto, dotado da consistência necessária para receber quaisquer construções.

Oferecia, ainda, aquele recanto, esta comodidade: dali partia e ali terminava o único caminho então existente, aberto “a pata de burro”, ligando o sítio das Águas do Viana à estrada que comunicava a estação do Carmo, da estrada de ferro Minas e Rio, com a povoação de Carmo do Rio Verde, vila do distrito de mesmo nome.

Lamentável que não se tenha conservado até hoje a primeira casa construída na nossa Estância, relíquia de São Lourenço antigo. Por que, enquanto foi tempo, não adquiriu a nossa municipalidade aquele imóvel, para conservá-lo e dar-lhe aquela destinação de interesse público local ? Nele conservado, poderia estar hoje instalado o museu da cidade. Prestar-se-ia, assim, justa e merecida homenagem a São Lourenço antigo, especialmente ao “São Lourenço Velho”, ninho de tradições, berço da esplêndida São Lourenço de hoje.

A ESTAÇÃO FERROVIÁRIA

Quando, em 1884, a Estrada de Ferro Minas e Rio passou na margem direita do Rio Verde, a uma distância inferior a um quilometro das fontes das Águas do Viana, São Lourenço ainda estava em ser naquelas águas e ainda era matagal agreste e desabitado, razão porque não foi construída estação alguma naquele local. Da estação do Carmo ia-se diretamente a Soledade de Minas.

Carmo era a estação que servia a Carmo do Rio Verde, hoje Carmo de Minas, e daí a razão de seu nome. Ao localizar quatro das suas estações no vale do Rio Verde, a Estrada deu a cada uma o nome da localidade mais próxima a que poderia servir. A estação do Carmo serviria à povoação de Carmo do Rio Verde; a de Pouso Alto, à cidade do mesmo nome; a estação de Virgínia, à povoação de igual nome; e a de Capivari à povoação de Sant’ Ana do Capivari.

Essas estações não conservaram seus nomes primitivos: a antiga estação do Carmo denomina-se hoje Américo Lobo, a de Pouso Alto é agora São Sebastião do Rio Verde, a estação de Virgínia agora chama-se Bom Retiro e a de Capivari foi rebatizada como Itanhandu.

Para a exploração das Águas do Viana, já então crismadas com o nome de São Lourenço, tornava-se absolutamente indispensável a existência de uma estação em um local o mais próximo das fontes minerais. Em 1892 foi inaugurada essa estação provisória, minúscula, toda ela construída de madeira vinda da Inglaterra, de onde procediam, aliás os demais materiais, inclusive tijolos e telhas que empregava a estrada nas suas obras.

A propósito, em memória histórica, escreveu ilustre e culto engenheiro patrício: “Ninguém é capaz de calcular a soma de trabalhos, as vicissitudes e os contratempos que tiveram de vencer aqueles abnegados brasileiros (os Veigas) para conseguirem da Superintendência da Viação Minas e Rio – via férrea inglesa deficitária e gozando de elevadas garantias de juros – a construção da estação provisória.

O mais curioso é que a atual Minas e Rio, em todos os registros referentes às suas estações, mencionava a de São Lourenço como inaugurada em 1884. Agora reconhece o erro, mas confessa não possuir elementos em seus arquivos para informar com exatidão sobre a data em que começou a servir à Estância a antiga gare provisória. Esta, depois de inaugurada uma nova estação, em 1926, passou a merecer as homenagens da sua conservação como monumento histórico da Estância.

Mas essa homenagem não lhe foi prestada. Transformaram-na, desde logo, em moradia do guarda-chaves da Estrada, até 1960, quando foi demolida, por se tornar inaproveitável a pequenina área de terreno que ocupava.

A CAPELA

Sobre a Capela, encontramos este precioso registro que abaixo transcrevemos, das Efemérides Mineiras, coligidas e redigidas pelo Sr. José Pedro Xavier da Veiga, irmão do Comendador Bernardo Saturnino da Veiga:

“10 de Agosto de 1891: Em um altar erigido sob dossel de pano, no alto de pitoresca colina, celebrou-se a primeira Missa nas Águas de São Lourenço, aprazível localidade sul mineira à margem do Rio Verde, riquíssima em nascentes de águas minerais. Houve grande concurso de fiéis, inclusive muitas famílias em sua maioria vindas das povoações vizinhas.

Quatro anos depois, em 10 de Agosto de 1895, foi inaugurada a Capela com a imagem de São Lourenço, sendo também numeroso o concurso de fieis ao ato, que esteve muito festivo”.

A primeira missa, a que se refere o registro acima transcrito, não foi celebrada no local onde se encontra edificada a atual Capela, mas em ponto um pouco mais elevado das terras pertencentes à empresa.

Para comemorar a data da inauguração da Capela, foi lavrada uma ata assinada por todos os presentes, sendo a primeira assinatura a do Sr. Antônio Dino da Costa Bueno, primeiro presidente da Companhia das Águas Minerais de São Lourenço.

No local em que está edificada a Capela, foi construída, em 1892, a Ermida Nosso Senhor do Monte, de uma só porta, sob a evocação de São Lourenço, erguendo-se em frente a ela, na mesma ocasião, um cruzeiro.

A construção da atual Capela foi iniciada em 1893.

As imagens para a Capela foram oferecidas, a de São Lourenço, pelo Papa Pio IX, assim como o primeiro paramento e o cálice, que ainda hoje devem existir, e a do Santo Mártir, que acha-se sobre o altar mór, pelo Dr. Francisco Luiz da Veiga, antigo deputado federal por Minas, irmão do Comendador Saturnino da Veiga, e as demais imagens pela baronesa Souza Queiroz.

Lei recente da municipalidade de São Lourenço consigna medida de proteção à capela como monumento histórico da Estância.

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