Tu vence memo

Autoria: Inácio Nogueira
Publicado na Folha Nova, nº 1.131,
em 29 de Maio de 1938

Mesmo quando a mulher fica calada, é lícito imaginar que ela mente em silêncio.

Chico Piaba mordeu os lábios de raiva. Com aquele era o terceiro que lhe falava do procedimento incorreto da Ritinha com o Tomé Peão, durante os quatro dias em que ele estivera viajando. Refreou a eguinha magra no alto da ladeira, antes de chegar à casinha, erguida no fundo da grota, abandonou o arreio, assentou-se no tronco de uma árvore tombada, acendeu um cigarrinho de palha e começou a pensar. Seria possível? Há tres anos vivendo juntos, trabalhando na lavourinha de feijão e milho, criando os porquinhos, sem uma pequena rusga, o menor desentendimento…Não, não podia ser… Mas, e as maledicências do Juca Manso, do Janjão e, agora, do Zé Rita? O Juca Manso era linguarudo e desaforado, ele bem sabia, mas o Janjão, e principalmente o Zé Rita, esses seriam incapazes de uma inventiva como aquela. A Ritinha, tão bonita e … Qual, estava o demo na casa do terço.
O fato é que alguma coisa anuviava-lhe o cérebro e oprimia-lhe o coração. Tinha o pressentimento vago de qualquer anormalidade. Talvez fosse tolice, bobagem enfim. Jogando para longe o toco de cigarro, deu de ombros, cuspiu, chupou os dentes, desviou o animal da árvore caída e saltou novamente para cima dele. Instantes depois entrava na casinha de taipa. Caminhou até a cozinha, acocorou-se junto ao fogão de lenha onde o cafezinho chiava na caneca de alumínio sobre a trempe. Ritinha achava-se no terreiro, perto da porta, e não o viu chegar. Ciente daquilo e para chamar-lhe a atenção, o caboclo suspirou à meia voz: “Ê, brabeza de vida.” Ritinha virou-se repentinamente e entrou sorrindo: “Seu cabôco. Já de vórta? Cumu foi de viáge?” – disse ela de modos gentis, aproximando-se risonha.
– Ahn… É ocê? Cumu vai? – perguntou ele simplesmente, fitando-a de maneira estranha.
– Tô boa – respondeu ela desconfiada – Ocê tá doente, Chico? – interrogou com ares de piedade.
– Cumu num havéra de tá? Dispois do que iscutei com respeito de ocê e do Tumé Pião.
A mulherzinha arregalou os olhos e afastou-se estuante:
– Di mim?
– Di ocê memo – afirmou o Chico, severamente olhando com desdém para aquele rosto moreno onde brilhavam dois olhos negros e rasgados.
Ritinha era ainda jovem, forte, sadia e bonita. Mesmo depois de casada continuava sendo a rainha de qualquer festa que se fizesse naquela redondeza, a morena fidalga que remexia lá por dentro com o coração dos cabras.
– O que qui ocê viu falá di mim? – indagou ele, surpresa.
– Num sei – respondeu ele secamente – só sei qui fiz um viajão danado, varei mato, subi serra, disci serra, passei inté fome, mode ganhá uns cobrinho pa ti introxá, i ocê purveita da minha ozência. Ocê merece é rêiu, tá uvinu?
– Ah, Chico, tú crê mais na língua du povo? Dêxa de bobage, home. Da boca du povo nem Cristo iscapa.
– Isso num serve. Ranja ôtra discurpa. Eu pruquê tô izaustico, sinão te quebrava um guatambu na cacunda, tá uvino, sirigaita?
– Ah, tamém… esbravejou ela, dando o desespero – gárra mi molá qui eu dô iscandro di verdade. Eu nem dei, mas dô.
– Tu tem coráge?
– Quenhé qui num tem? Tratando a gente desses módo. Quinem cachorro. Tu sabe qui eu gosto só de ôce.
– É di curação, Ritinha?
– Juru inté, tu sabe disso…
Chico Piaba teve um pequeno sorriso de satisfação. Abriu novamente a boca, mas nada disse… era demais… a mulher parecia-lhe particularmente encantadora. Ao perceber aquilo, Ritinha sorriu também, procurando, de uma maneira infantil, esconder o rosto entre as mãos. Seus grandes olhos negros, entretanto, fitavam o marido através do vão dos dedos.
– Quár, o mundo tá pirdido. – arrematou ele maneando alegremente a cabeça – Vem cá, peste, mi dá uma beijoca. Di quarqué jeito tu vence memo…

Inácio Nogueira
Silvestre Ferraz, Maio de 1938

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