Um Domingo de 1914

Autoria: Eugenio Rubião
Publicado na Folha Nova, nº 4,
em 1º de Fevereiro de 1914

Domingo. Um dia de magnífico sol dourado a aquecer voluptuosamente a terra, e um céu translucidamente azul a arquear-se em cúpula infinita por sobre os montes, a sorrir por trás das árvores…

Domingo. Repiques sonoros de sinos no ar, e camponeses que chegam para ouvir a missa, a santa missa que os faz vir de longe, através de montes e vales, a roupa de muda pendurada na vara. Os outros vem aos grupos, em alegre falatório, com grandes gargalhadas.

A quando e quando, um grupo de cavaleiros, cavalgando éguas magras, as crinas entrançadas de carrapichos; ou montando cavalinhos de trote duro ou pacatos burrinhos, de boas orelhas e olhares ternos.

Atrás vem o mulherio: senhoras negras de grossos beiços e um intenso cheiro a cebola, mulatas faceiras, os seios fartos a estalarem dos corpetes: caboclinhas airosas, de dentes miudinhos na boca breve, pernas finas e morenas a saírem das saias gomadas; atrás da orelha, pequena e rosada, o cigarro de palha…

Feliz gente do campo!

Há-os caboclos enfezados, de barbicha rala, cabeleira intonsa, um ar aparvalhado, cheirando a capoeiras; há-os negros, de chapéu de palha e faca na cintura, em mangas de camisa, e os pés, encoscorados, metidos em alpercatas de couro.

De repente vá os roceiros de saltar pra cá e pra lá do caminho: é peão que vem na besta ruana, tilintando as rosetas da enorme espora, muito ancho no terno de diagonal preto.

-Ai, seu Maneca! – bradam admirados os do grupo, a contemplar o mulato, firme no lombilho, mau grado os saltos do animal enraivecido, os ilhais banhados de suor, sanguejantes das esporas.

-Cá comigo é nove, rapaziada. Pode pular ruana dos infernos! E some-se aos solavancos no cotovelo da estrada, deixando após si vortilhões de poeira.

Mais e mais, os repiques de sino se fazem sonoros na diafanidade do ar. Galgado um tope e lá surge o povoado nas grimpas do morro, para lá do rio. É um punhado alegre de casinhas, destacando-se mui brancas por detrás dos muros vermelhos, das velhas cercas de pranchões, dos quintais tufados de laranjeiras de frutas de ouro.

Para cá do riacho, rolando manso entre os verdes capitubais, a estrada de ferro e a estação, onde o trem das onze acaba de chegar, rerrangendo pesadas ferragens, baforando rolos de fumo, a caldeira a chiar, como se o possante animal de aço se cansasse de puxar a enorme enfiada de vagões.

Passada a ponte de tábuas, a ruela que vai ter ao largo da matriz, com suas casas acachapadas, com os telhados que se avergoam, e, a espaços, escancaram-se as portas das vendas, aonde a matula vai refrescar a goela com uns martelos de caninha.

Ao fim do largo, a igreja surge, as duas torres denegridas no ar, vibrantes de sonoridade de sinos e douradas de sol.

Para cá, para lá, num passo pachorrento, à frente do templo, o vigário lê o breviário, e, assentados por sobre blocos de pedra do adro, tocam a esperar a missa os roceiros, os cigarros nos beiços, a falar sobre coisas do campo.

Uma badalada prolongada do sino: o vigário entra na igreja fechando o livro, num bocejo distraído. Tanto que se faz ouvir a sineta, a confusão toma de assalto as portas laterais da igreja, cada qual querendo ser o primeiro a molhar a testa na pia de água benta. Para o altar, estrelado de luzes e enfeitado de palmas de papel multicor, sobe o vigário, o corpo nutrido enfiado na alva, a casula cintilante ao ombro, conduzindo as hóstias que vai comer com o vinho e a água.

Murmúrios de prece pela nave; às vezes largos silêncios de recolhimento, só cortados pelas palavras monótonas do ofertante.

No ar, por sobre as cabeças dos fiéis, andorinhas revoam, e, a quando e quando, cansadas, pousam pelos nichos dourados, os olhinhos vivos cravados nos velhos santos, com um chilrear travesso, como a dizer-lhes palavras de amizade.

Oh! quanto encanto nestes domingos campesinos, quanta alegria de viver nessa pobre gente da roça. E custa a crer que pessoas que trabalham rudemente de sol a sol, moram em casas rudes, enfrentam dificuldades de alimentação, possam sorrir tanto!

Eugênio Rubião
Silvestre Ferraz, Fevereiro de 1914

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