Velha Fazenda Abandonada

Autoria: Gastão Ribeiro Vieira
Publicado na Folha Nova, nº 69, em 6 de Junho de 1915

Cubatão, velha fazenda abandonada… Outrora reinava ali a alegria, o prazer, a paz, a harmonia, a reunião de toda a família, op berço, o lar, o amor, a vida, o entusiamo que toca ao encanto, ao belo, ao sublime. Ouvia-se ali o mugir do gado, o cantar uníssono do carro de bois, o vozerio dos tropeiros, o trinar da passarada, a gargalhada da molecagem, o ranger das porteiras, o coachar das águas. No tempo das colheitas, a destala do fumo até alta noite, o cantarolar dos fiadores, o desafio poético dos operários, o servir do chá e do café, o esplêndido fogareiro que a tudo aquecia nas noites frias, a confusão do trabalho, as histórias fantásticas… Ao meio-dia, o bater do feijão seco sobre o curral, ao “pá” compassados das varas de pitangueira, o montão de palha que fornecia à criançada mil divertimentos, a colheita abundante do café, a tiragem do leite, o fabrico do queijo, o apartar do gado, a grande manada caminhando para as palhas onde ia nutrir-se do fresco pasto e das abóboras de um amarelo vivo. As grandes matas forradas de belos frutos vermelhos, nas árvores carregadas de frutos maduros pousavam lindos pássaros. Em Setembro, as campinas imensas atapetadas de flores encantavam ainda mais a linda fazenda, belíssimo horizonte descortinava para mais de cem léguas, encontrando-se aqui e ali cascatas de águas frescas e cristalinas. Bandos de macacos saltitavam à procura de frutos silvestres, entre eles seus filhinhos que não largavam um só momento. O elevar e o descambar do Sol nestas paragens é sempre de uma beleza esplendorosa. Mil coisas despertavam a vida, a poesia, o encanto. Em tudo, por tudo, podia dizer-se uma nova Suíça.
Com o correr dos tempos, com a morte dos grandes proprietários, sem divisão de terrenos, tudo foi se amortecendo, esfacelando, e hoje quem por ali passa só ouve sobre as ruínas o canto saudoso da cigarra fazendo dueto com o canto sentido da saudade.

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