Zeca do Pouso Alegre

Autoria: João do Rio Verde
Publicado na Folha Nova, nº 1.327,
em 24 de Maio de 1942.

Transcrevo hoje um dos períodos com que, há pouco mais de uma ano, iniciei estas crônicas:
“Leitores amigos, sou e serei sempre um pobre João da beira do rio que, deixando o seu anzol e o seu bornal nas margens do próximo e solitário Rio Verde, transponho a colina fronteira e alcanço a florescente cidade de Silvestre Ferraz para, em linguagem simples e despretenciosa, em páginas de amor e de saudade, reviver um passado distante e ditoso da terra em que nasci”.
Continuando, pois, a desfiar o rosário das doces e saudosas recordações dos tempos da minha infância, quero prestar nestas pálidas linhas uma homenagem de afeto e de saudade a um moço do nosso Carmo de antanho, falecido há alguns meses apenas.
Zeca do Pouso Alegre – coração construído dos mais nobres sentimentos. A sua morte inesperada deixou na sua terra natal uma saudade imensa.
José Joaquim Ribeiro de Carvalho faleceu em São Paulo, onde fora em busca de melhoras para a sua saúde, porém ninguém imaginava que, em vez de melhoras, encontrasse ele a morte numa casa de saúde paulista, longe da terra mineira em que nasceu e que ele sempre soube amar com todas a vibrações da sua grande alma.
Antes de se sujeitar à operação que o vitimou, num tristíssimo pressentimento, com os olhos orvalhados de lágrimas, suplicou à família que, caso morresse, queria repousar o último sono no pequeno cemitério do torrão natalício. E a família, comovida, atendeu ao derradeiro apelo do saudoso morto, pois os funerais se realizaram nesta cidade, onde o seu corpo, como ele tanto desejou em vida, dorme o sono eterno.
Consorciara-se, em 1902, com Noeme Junqueira de Oliveira, filha de João Antonio de Oliveira e de Gabriela Junqueira, ambos falecidos há mais de quarenta anos.
Ele era filho do saudoso carmelitano Joaquim Ribeiro de Carvalho, antigo proprietário da fazenda denominada Pouso Alegre, a qual ficava próxima à estação do Ribeiro, sendo esta a razão pela qual o homenageado era por todos conhecido por Zeca do Pouso Alegre.
O distinto casal teve onze filhos, sendo que quatro estão casados e sete solteiros.
O Sr. José Joaquim Ribeiro de Carvalho era um homem reto e ninguém o demovia de uma diretriz traçada; não era homem para recuos ou para deserções, quando a resolução tomada estava de acordo com criteriosa e estudada deliberação.
Numa célebre luta política travada há anos, na qual duas fortes correntes antagônicas dividiram o país numa campanha heróica e memorável, ele divergiu da digna e valorosa família Junqueira, de que era estimado membro, a fim de atender tão somente aos ditames de sua consciência.
Era ainda um homem religioso e chefe de família digno de ser imitado. Dª Noeme e seus filhos, com justo motivo, se acham inconsoláveis com o súbito desaparecimento desse distinto carmelitano.
– Minha querida terra natal, permite, pois, que eu deixe mais uma vez o meu recanto tristonho e solitário nas margens do Rio Verde e, com o meu coração imerso numa densa nuvem de tristeza, venha compartilhar da tua grande dor, derramando também uma lágrima cristalina de amor e de saudade, sobre o mármore branco em que dorme o sono eterno esse teu nobre e mui digno filho: José Joaquim Ribeiro de Carvalho, o Zeca do Pouso Alegre.

João do Rio Verde
Maio de 1942

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