Zequinha do Campo Redondo

Autoria: João do Rio Verde
Publicado na Folha Nova, nº 1.318,
em 15 de Março de 1942.

Em magnífico poema, um inspirado poeta polones, numa linguagem maravilhosa, descreveu a lenda de uma floresta encantada de seu país, onde a passarada, ao sentir que se aproximava a hora da morte, num vôo vertiginoso, ruflando as asas, procurava exalar o último suspiro à sombra das frondosas árvores que lhes serviram de berço.
Porém, não somente os seres alados cultivam com carinho o amor ao pequenino sitio em que se lhes abriram os olhos pela vez primeira.
Gonçalves Dias, a personificação da poesia lírica brasileira, no exílio, em versos sublimes e repassados de incomparável doçura, suplicou a Deus que não permitisse a sua morte antes que ele voltasse a contemplar as esguias palmeiras da sua longínqua terra natalícia. E Deus, suprema bondade, atendeu ao apelo do poeta, pois ele só expirou após vislumbrar, ao longe, como surgindo do seio das ondas revoltas do oceano, numa marcha misteriosa em demanda do azul do céu, irmanado ao verde das montanhas, uma majestosa fila de palmeiras, como se elas trouxessem o adeus de despedida do seu saudoso Maranhão.
E o vate contemplou, então, pela derradeira vez, aquelas palmas gigantescas, onde, na sua venturosa infância, ele ouvira o melodioso gorgeio do sabiá, o tão conhecido sabiá dos nossos laranjais floridos.
O nosso querido Zequinha do Campo Redondo amou, como nenhuma outra pessoa, com verdadeiro deslumbramento, a sua pequenina terra natal, e, frequentemente, ele afirmava que, qualquer outra cidade por mais bela que na realidade fosse, não se lhe apresentava com os encantos do nosso venerado Carmo do Rio Verde.
Raríssimas vezes ele viajava, pois sempre se lhe assaltava o receio de que podia morrer distante do risonho povoado em que nascera.
Durante o dia o Zequinha auxiliava o pai nos serviços da lavoura e, à tarde, diariamente vinha ao Carmo, fazendo ponto final na casa de Dª Ida Abraão, à rua Direita, onde muitas vezes pernoitava em companhia do Chiquinho, seu dedicado amigo. Dª Ida com aquela sua fisionomia iluminada por um sorriso de infinita bondade, era uma espécie de mãe espiritual de todos os jovens carmelitanos, pois pela maneira altamente cativante com que acolhia os que procuravam a sua casa, ela transformara aquele lar feliz num verdadeiro seio de Abraão.
O Zequinha era um moço possuidor de um coração magnânimo e sempre se revelou um amigo sincero dos seus conterrâneos, jamais alimentando sentimento hostil contra qualquer pessoa e sabia, evangelicamente, perdoar as faltas alheias. À meiguice e à bondade, ele ajuntava uma alma cheia de altruísmo.
Amou muito e muito na vida. O seu amor, entretanto, se assemelhava ao beduíno que, perdido na imensidade do deserto, cai desfalecido após palmilhar em vão o escaldante areal sem encontrar o oásis desejado para mitigar a sede impiedosa.
Bem merece ele o seu nome nesta crônica orvalhada por uma lágrima dorida de saudade. Como me faz bem recordar hoje o saudosíssimo Zequinha, tão cedo levado deste convívio que lhe era tão caro, para as regiões insondáveis do Além.
José Paulino Ribeiro Junqueira nasceu na fazenda do Campo Redondo, cursou as aulas do afamado Ginásio São José e formou-se em farmácia pela Escola de Ouro Preto.
Achava-se instalado com importante estabelecimento farmacológico em Araçatuba, próspera cidade paulista, quando foi acometido por grave enfermidade.
O seu primeiro pensamento foi regressar imediatamente para o amado rincão natal afim de exalar o último sopro de vida entre parentes e amigos.
E aqui em Silvestre Ferraz, resignado e confortado com os sacramentos da religião católica, o estimado Zequinha, serenamente, fechou os olhos no grande sono eterno, deixando um sulco latente de saudade imorredoura nos corações dos amigos de outrora.

João do Rio Verde
Março de 1942

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